Lá vem Maria

TRILOGIA DA FÊNIX: A MENINA RUIM

nov 23, 2011 por

Ainda não tinha dez anos quando revidou à bofetada do irmão de dezoito atirando copos e talheres em sua direção. A mãe desconsiderou a bofetada e para corrigir o mau gênio, impôs um castigo. Para não piorar as coisas a menina ficou calada, ouvindo os resmungos da mulher: pra quem será que essa criatura puxou pra ser tão ruim?
A mãe não falava de má índole, crueldade ou perversidade, que conduta do gênero a filha não tinha. Ao contrário. Era gentil com os bichos, cultivava um pequeno jardim que ela própria havia criado, nunca batia em crianças menores, evitava brigas com colegas de brincadeira. Mas revidava a tudo que lhe desagradasse, fossem palavras ou atos. E nestes termos, levava adultos de todas as idades ao constrangimento.
Para não piorar as coisas a menina ficou calada. Não contou a ninguém, que mesmo tomada de raiva, evitava acertar o irmão com os copos, os garfos e as facas que atirava. Se soubessem de seu segredo, a vida poderia ficar ainda pior. Melhor o castigo injusto que o risco eminente.

Ainda não tinha quinze anos quando, de ferro elétrico fumegante em punho, enfrentou o homem que ameaçava bater numa menina indefesa. Fez com que o ferro esbarrasse na mão do agressor para que soubesse de sua disposição. O homem vociferou, mas saiu de cena enquanto a mãe, que assistia, reafirmava sua crença na natureza ruim da adolescente. Estava exausta e não quis argumentar. Guardou para si o alivio que experimentou ao ver o homem ceder. Seria doloroso machucar uma pessoa, ainda que para evitar que machucasse uma criança.

Não tinha vinte anos quando se opôs aos familiares que ameaçavam expulsar um dos membros. Não conseguiu convencê-los da validade de seus argumentos, mas os imobilizou e obteve a suspensão da sentença. A mãe louvou sua ruindade e festejou a inteligência expressa na argumentação. Ela, no entanto, não mostrou conivência. Indignação e raiva a haviam induzido, mas também a exauriam.

Beirava os trinta anos quando surpreendeu funcionárias sob sua supervisão debatendo a seu respeito. Uma, recém chegada, falava das cismas impostas pelos comentários ouvidos. Outra, mais antiga testemunhava a respeito do apoio recebido. Não evitou a situação, fez piada com os títulos recebidos á revelia, deixou o grupo à vontade e partiu incomodada.

Completaria trinta e cinco anos quando, numa brincadeira de amigos secretos uma colega de trabalho, favorecendo a adivinhação, definiu seu amigo ou sua amiga como a pessoa mais respeitada ou temida da organização. Ela gritou o nome do presidente enquanto ouvia de todos os outros, seu próprio nome. Brindou à sua capacidade de ordenar atitudes apenas com sua presença, riu com os demais e partiu cansada de ser “uma pessoa ruim”. Semanas depois estava decidida a aparar os espinhos e dar vazão ternura, que acreditava enclausurada.

Tinha quarenta anos completos e passava por grande dificuldade financeira e de saúde. Era comum que a buscassem para apoio, para pedir favores, para apropriação de suas idéias e conhecimentos. De resto, estava sozinha. Aos pouco as capacidades de sonhar e criar embotaram, o corpo deformou e as dores o tomaram.
Urgia que descansasse, necessitava de tempo e lugar para regenera-se, mas principalmente sentia o desespero de ver-se desalojada de si.

Enfim, comemoraria quarenta e cinco anos revitalizada pelo encontro com um homem de gênio ruim. Para dar conta da convivência resgatou argumentos, poliu a indignação, apropriou-se das situações que instigavam sua raiva e entendeu que sua ternura, para florescer, precisava de suas farpas afiadas. Bastava que soubesse quando baixar a guarda.

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TRILOGIA DA FENIX: O DIA DA RAIVA SEM CULPA

nov 19, 2011 por

Era um sentimento mudo. Tomava o corpo desde os poros do couro cabeludo às unhas dos pés e a paralisava. Não cabiam definições, frases, palavras. Não cabia nem mesmo um ponto de interrogação ou exclamação. O bloqueio tomou sua capacidade de pensar palavras, de pensar ações, de pensar…
Transferindo peso do corpo para o batente da porta, prendeu os olhos no homem esguio que ria e ria de uma bobagem qualquer dita pela mulher que à frente, tagarelava.

Na passagem, o garçom esticou o braço com a bandeja e, no automatismo, ela apanhou uma taça.
Não faria nada, não diria nada, não demonstraria nada, pois não era de sua natureza deixar-se conhecer. Continuaria imobilizada, mas superior à deslealdade de seu opositor.

Na passagem o garçom esticou o braço com a bandeja e, no automatismo, ela trocou a taça.
Não permitiria que soubessem da natureza de seus sentimentos. Emudeceu as emoções. Continuou a olhar o homem elegante que bebia e falava para três ou quatro pessoas afáveis e risonhas.

Na passagem o garçom esticou o braço com a bandeja e, no automatismo devolveu a taça vazia e apanhou outra, que transbordava.

Era um sentimento torpe. Retesava os músculos, contraía tendões, deixava o peito opresso. Não devia fazer parte de sua natureza, mas era impossível negá-lo. Olhava o homem que antes provocara ruptura em sua muralha, forjando afeto e contra vontade se apropriava da palavra dita pelo corpo: raiva.

Na passagem o garçom evitou esticar o braço com a bandeja, mas ela o chamou e trocou a taça vazia por outra, repleta do líquido transparente e borbulhante.
Vivia em equilíbrio, sem grandes tropeços ou emoções. E para que serviam as emoções, senão para quebrar a serenidade? Mas o homem de gestos graciosos, que do outro lado do salão franzia a testa ao vê-la grudada ao batente, apareceu na estética de sua propriedade, a esperou depois do expediente, insistiu que o acompanhasse ao bistrô visinho, ligou, mandou flores, provocou sua entrega, freqüentou seu círculo de amigos, galgou posições sociais, traiu sua confiança, provocou frustração e a fez dona de intensa raiva.

O garçom evitou aproximar-se, mas ela deixou o recosto, foi até a bandeja e mais uma vez trocou a taça vazia por outra, repleta de champanhe. Continuou andando, atravessou o salão sem desgrudar os olhos do individuo alinhado e sedutor que caminhava ao seu encontro.

Era um sentimento lícito, definitivamente apropriado, completamente pertinente. Mas não quis carregar a raiva consigo e frente àquele que antes a fizera sonhar, a expressou sem travas. Ainda o ouviu considerar sua possível embriaguez, mas não deu trela à opinião. Depositou a taça na bandeja, andou rumo à porta, parou, voltou o corpo e declarou: hoje é meu dia de embriagues sem pudor e da raiva sem culpa.
Ciente que dava conta das frustrações, antes de dormir fez votos de viver novos riscos, mas também firmou propósito de cuidar para que seus sentimentos não servissem à manipulação.

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TRILOGIA DA FÊNIX: O VESTIDO AZUL

nov 8, 2011 por

Desejava ter cadernos organizados, títulos sublinhados em vermelho, letra bonita, conteúdos seqüenciados, cada qual em seu lugar. Desejava e tentava. Mas sem mais nem menos, um após outro, os cadernos ficavam magros, cheios de desenhos inacabados e de anotações pessoais. A língua portuguesa migrava para o meio da aritmética ou vice-versa e o tal dos estudos sociais viravam um ninho de amafagafos.

Não seria diferente com seu guarda roupa, mas lá quase não podia por a mão. Os vestidos, cuidadosamente arrumados só podiam ser retirados sob supervisão. A cômoda, por sua vez…
A cômoda, aquele móvel onde ficavam as roupas do dia-a-dia era o melhor exemplo de caos que a família conhecia. A mãe ralhava, a irmã mais velha reclamava e ela tentava e tentava, mas sem mais nem menos as roupas saiam do lugar e se entrelaçavam voluntariosamente.

Dos vestidos cuidadosamente arrumados e protegidos, só gostava de dois. Um branco, de corte simples, sem manga ou gola, sem laços ou fitas, sem saias nem sobre saias. Sua beleza estava na trama de pequenas e delicadas rendas, que não deixavam espaço para adereços. O outro, em tecido leve de cor azul tinha um detalhe singular: as mangas três quartos em formato de sino. Gostava da cor, do corte simples e das mangas, que em vez de fechar, abriam.

Fosse dona de suas escolhas, nas ocasiões especiais só lançaria mão de uma dessas peças. Mas não era. E para encerrar as questões, mais que para agradar à mãe, vez ou outra aceitava uma das tantas vestimentas cheias de firulas e salamaleques.

Foi assim, tentando ter novo um caderno para retomar o propósito da organização, que juntou os trocados que sobravam aqui e acolá e recorreu à papelaria. Escolheu a cor da capa, viu os preços, contou o dinheiro. Estava pronta para encerrar a negociação, mas ao lado do caixa, bem ao lado mesmo, havia uma nova vitrine. Pequena, mas cheia de presilhas, brincos, pulseiras e colares. Peças brilhantes e coloridas, diferentes das jóias que as irmãs vez ou outra ostentavam e infinitamente mais em conta.
Parou, contou e recontou o dinheiro, ameaçou pagar o caderno e ir embora, mas lá no meio das bugigangas, bem no meio mesmo, descobriu uma presilha azul. Tão azul quanto o seu mais belo vestido. Não bastasse, tinha numa das pontas uma pedra branca, tão branca quanto seu outro vestido. E do lado, bem do ladinho da presilha repousava uma pulseira linda, ligeiramente mais escura.

Pensou e repensou. Voltou a contar o dinheiro, considerou o tempo que havia gasto para juntar a quantia, vislumbrou a possibilidade de abrir mão de sorvetes e chicletes, lembrou que o proprietário era cliente mensalista de seu pai e fez seu primeiro crediário.

Fez, tropeçou na capacidade de execução do plano de pagamento e esqueceu a dívida. Mas o homem, antigo proprietário das peças e cliente de seu pai não esqueceu. Tanto lembrou que numa tarde qualquer o pai, que pouco lhe dirigia a palavra a interpelou. O dono da papelaria, que nem precisava daquela quantia ínfima, na hora de pagar as contas do mês havia apresentado a nota da presilha e da pulseira.

Já tinha retesado o corpo esperando imensa represália, mas o homem nada fez alem de alertá-la. Não faltava dinheiro à família. Portanto podia ter seus enfeites sem que para tanto o envergonhasse com falta de pagamento. Concluir recomendando que lhe pedisse e traria os adornos desejados.
Ficou envergonhada, talvez ainda mais que o pai, frente ao cobrador. Mas ao saber que o pai nada falaria à mãe, comemorou, feliz, a única aliança familiar. Logo esqueceu a questão e na primeira oportunidade deixou que a faceirice a contagiasse enquanto exibia vestido e adornos.

Não ganhou nenhum novo enfeite do pai, que simplesmente sumiu sem deixar rastro.

E, tentando minimizar confrontos, cresceu entre organzas e sedas, sapatos de verniz, brincos de pérolas e armários, que nunca seguiam as normas maternas. Cresceu ressentindo-se da ausência do aliado, que denominou traidor. Cresceu e finalmente descobriu que o homem cortês e de poucas palavras, fora levado à força e desapareceu nos meandros da ditadura. De posse da verdade, rompeu com os tecidos de nome e renome, conseguiu uma vaga num curso artes e para comemorar, tingiu o vestido de linho branco com o mais intenso dos azuis que encontrou num armazém sem eira nem beira.

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