“Faça um bom trabalho e ele permanecerá.”
Ouvi a orientação em 1982, se não confundo o ano, numa sessão de supervisão. Tratava da relação com outros profissionais, ou das dificuldades em que esbarrava no meu primeiro ano de atividade como psicóloga.
Faz muito tempo. Estávamos ainda na pré história dos holofotes, do estrelismo instantâneo, da busca de um lugar na mídia, a qualquer preço.
Não posso dizer que consegui vislumbrar, de imediato, o alcance da orientação. Sequer posso assegurar que fiz o melhor trabalho possível, mesmo porque, antes de dar nova direção à vida, interrompi a atividade inúmeras vezes. Mas, apesar das idas e vindas, não esqueci o ensinamento.
Hoje, em meio a essa barafunda, vendo boas iniciativas sumirem no excesso de neon, ou sendo substituídas por ações mais tecnicistas, de resultado financeiro rápido e qualidade duvidosa, pergunto se bons trabalhos realmente permanecem.
E o que faço? Garimpo. Vou vasculhando, selecionando, acompanhando as situações que cruzam meu caminho e concluo: as boas iniciativas permanecem sim. Algumas florescem e se espalham. Talvez porque seus gestores sejam maleáveis, diplomatas, contem com amparo social ou porque as ações aconteçam em tempo e espaço precisos. Outras, crescem escondidas em aparentes becos, que se alastram fora da nossa visão. E há aquelas que tendem a sumir para ganhar vida no futuro. Algumas, semelhantes às raízes de certos tubérculos, se alastram sob a terra e soltam troncos e folhas à frete. Outras emergem raquíticas e somem debaixo daquelas espaçosas e dotadas de extremo viço. Mas sempre que podem, largam sementes ao acaso, esperançosas de que um novo broto tenha um pouco mais de sorte. E há ainda aquelas boas ideias que simplesmente impregnam a atmosfera e ficam por aí, até que alguém dotado da capacidade de mergulhar no inconsciente coletivo, as tornem concretas.
Quanto aos holofotes, estrelismos instantâneos, iniciativas meramente tecnicistas, simplesmente fazem parte do nossos tempo. E podem sim, ofuscar bons trabalhos, boas iniciativas. E ofuscam de fora para dentro e de dento para fora. Porém, garimpando através do tempo, desde a pré história das redes sociais, entendi que o excesso de brilho pode exaurir a fonte de energia e que o instantâneo é, em geral efêmero.
Somos humanos e, como tal, repetitivos. Repetimos os erros, cometemos enganos semelhantes séculos pós séculos, mas também repetimos acertos. E abdicando do olhar de curta distância, recomeço, orientada pelo mesmo principio: fazer um trabalho honesto, esperando que permaneça ou que pelo menos dê sementes para futura reprodução.
Fica aqui, o agradecimento ao profissional e amigo que com sutileza, me ensinou essa e outras lições.
