Lá Vem Maria

Literatura de Bem com a Vida

BONS TRABALHOS PERMANECEM?

abril 26th, 2012

“Faça um bom trabalho e ele permanecerá.”

Ouvi a orientação em 1982, se não confundo o ano, numa sessão de supervisão. Tratava da relação com outros profissionais, ou das dificuldades em que esbarrava no meu primeiro ano de atividade como psicóloga.

Faz muito tempo. Estávamos ainda na pré história dos holofotes, do estrelismo instantâneo, da busca de um lugar na mídia, a qualquer preço.

Não posso dizer que consegui vislumbrar, de imediato, o alcance da orientação. Sequer posso assegurar que fiz o melhor trabalho possível, mesmo porque, antes de dar nova direção à vida, interrompi a atividade inúmeras vezes. Mas, apesar das idas e vindas, não esqueci o ensinamento.

Hoje, em meio a essa barafunda, vendo boas iniciativas sumirem no excesso de neon, ou sendo substituídas por ações mais tecnicistas, de resultado financeiro rápido e qualidade duvidosa, pergunto se bons trabalhos realmente permanecem.

E o que faço? Garimpo. Vou vasculhando, selecionando, acompanhando as situações que cruzam meu caminho e concluo: as boas iniciativas permanecem sim. Algumas florescem e se espalham. Talvez porque seus gestores sejam maleáveis, diplomatas, contem com amparo social ou porque as ações aconteçam em tempo e espaço precisos. Outras, crescem escondidas em aparentes becos, que se alastram fora da nossa visão. E há aquelas que tendem a sumir para ganhar vida no futuro. Algumas, semelhantes às raízes de certos tubérculos, se alastram sob a terra e soltam troncos e folhas à frete. Outras emergem raquíticas e somem debaixo daquelas espaçosas e dotadas de extremo viço. Mas sempre que podem, largam sementes ao acaso, esperançosas de que um novo broto tenha um pouco mais de sorte. E há ainda aquelas boas ideias que simplesmente impregnam a atmosfera e ficam por aí, até que alguém dotado da capacidade de mergulhar no inconsciente coletivo, as tornem concretas.

Quanto aos holofotes, estrelismos instantâneos, iniciativas meramente tecnicistas, simplesmente fazem parte do nossos tempo. E podem sim, ofuscar bons trabalhos, boas iniciativas. E ofuscam de fora para dentro e de dento para fora. Porém, garimpando através do tempo, desde a pré história das redes sociais, entendi que o excesso de brilho pode exaurir a fonte de energia e que o instantâneo é, em geral efêmero.

Somos humanos e, como tal, repetitivos. Repetimos os erros, cometemos enganos semelhantes séculos pós séculos, mas também repetimos acertos. E abdicando do olhar de curta distância, recomeço, orientada pelo mesmo principio: fazer um trabalho honesto, esperando que permaneça ou que pelo menos dê sementes para futura reprodução.

Fica aqui, o agradecimento ao profissional e amigo que com sutileza, me ensinou essa e outras lições.

PATERNIDADE SEGUNDO DR. EDWARD BACH

abril 20th, 2012

Em 1978, estagiária de psicologia escolar, entendi ou intuí, que educar bem, ou formar bem, requer vínculos não ambíguos e limites bem dosados. Naquela década, as vezes se fazia necessário orientar pais neste sentido. Quando encerrei esse trabalho, em 2004, a frase “limite é um ato de amor” tinha lugar quase cativo nas entrevistas e palestras com os pais Leia Mais...

TRAVESSIA DA ALMAS

abril 18th, 2012

Na imensidão da areia clara e fina ia titubeando. Sentia que os pés enterravam na areia, mas mantinha os olhos no céu. Logo a areia solta desapareceria e os pés poderiam deslizar na massa molhada e pesada. E a água salgada chegaria em ondas e cobriria os rastros e arrastaria grãos e jogaria estrelas para fora e puxaria moluscos para dentro de si Leia Mais...

CASAS DE BARRO – parte 4

março 30th, 2012

Casas de Barro - uma história contada post a post Entre alerta e atrapalhada, olhava o rosto moreno de maçãs saltadas sem responder. Talvez o desconhecido acreditasse que não entendia sua língua e voltou a perguntar meu nome. Nara, respondi hesitante. Ele não deu trela ao titubeio. Anunciou que o chamavam Alejandro, que poucos gringos acertavam a pronúncia, que era outro o seu nome original, mas a comodidade o fez Alejandro Leia Mais...

MARIA, VESTIDA DE PLENITUDE

março 22nd, 2012

 Entrou na avenida vestindo a fantasia que trazia na bagagem. Não titubeou. Guiada pelos vultos do entorno, avançou rodopiando e sambando e cantando, como se da vida restasse apenas um pedaço de noite. Brilhou à luz dos refletores  e reluziu purpurinas até que a bateria cessasse Leia Mais...

ENCONTRO MARCADO

março 20th, 2012

Ela tentava superar o raciocínio embaciado e a lerdice do corpo, mas o ar parecia rarefeito, a respiração abaixo do necessário e os músculos pareciam falhar no intento de manter o tronco aprumado. Cambaleante, deixou a mesa do computador e seguiu para o quarto. Não teve tempo de fechar persianas Leia Mais...

ENTRE DEUS E DEUS

março 16th, 2012

Malena cresceu. Mas antes que chegasse ao tamanho da mulher de agora, deixou o pequeno sítio e rumou com a família para a pequena cidade. E de lá, antes que o corpo ganhasse as formas do corpo da mulher de agora, rumou com a família para a cidade de médio porte. Não seguiu com os seus para lugar algum Leia Mais...

DESSEMELHANTES

março 4th, 2012

  “Meu lado direito é conflito e o esquerdo conflita com o primeiro. Minha cabeça é conflito e o coração conflita com a cabeça. Meu lado esquerdo é conflito e o direito conflita com o anterior. Meu coração é conflito e a cabeça conflita com o coração. Um lado do cérebro é conflito,  o outro conflita com o mundo Leia Mais...

Num trecho de estrada, pássaros festejavam

março 1st, 2012

  O pé esquerdo ia torto. Fora a solução encontrada por ela para minimizar a dor que tomava a sola do pé, atravessava os músculos do calcanhar e alcançavam o tornozelo. A bagagem, ainda que pequena,  pesava no braço cansado. Ia revezando entre direito e esquerdo e, às vezes, tentava deixar as alças numa das mãos Leia Mais...

CASAS DE BARRO – parte 3

fevereiro 26th, 2012

CASAS DE BARRO: uma história contada post a pots - 3   A presença forte de terra, o sol, o vento sussurrante e leve faziam transbordar nostalgia. O balanço da cadeira colocada na varanda, em frente ao quarto, trazia lembranças das mulheres de minha infância. Na porta das casas de minhas reminiscências elas se reuniam para a prosa do final do dia Leia Mais...