Lá vem Maria

Cenas Do Bar D’

jun 14, 2016 por

ilustração com imagem da galeria do TUC, foto de Paulo de Jesus

ilustração com imagem da galeria do TUC, foto de Paulo de Jesus

Maria Luiza estava novamente prostrada sobre a mureta da varanda. Copo com licor na mão, garrafa ao lado, observava Neno. No Bar D’, o homem ciceroneava um pequeno e barulhento grupo. Risos e gestos quase grotescos, emitidos entre fumaça e doses de uma bebida qualquer, avançavam através do espaço. A rua de areia não freava as histórias contadas em voz dramática e alta. E as histórias levam-na a vagar pela vida do protagonista.
Neno era vendedor conhecido. Fazia questão da referência: fornecia a melhor erva e o melhor pó. Vangloriava-se de ser durão e exercer suas atividades sem sucumbir a intimidações. O mundo era seu inimigo. Tinha clientes, colegas, parceiros comerciais e nenhum aliado. Era convicto de que a postura o mantinha vivo.
A pacata Malu, tinha posicionamento oposto. Parecia esperar que um acontecimento qualquer revirasse a vida que a insatisfação consumia. Parecia adaptada, mas pequenas frestas expunham o descontentamento. Nas infindáveis noites de vigília a angústia transbordava. O marido, abandonado no leito, nunca perdia o sono. Surian nunca desmoronava. Nada abalava seu mundo construído de tijolo e concreto. Os anos passavam e ele seguia incólume, envolvido com os projetos de Norton, que jogava pesado na disputa pela liderança da cidade.
Reis de um olho só, brigando para liderar alguns milhares de cegos, definia Malu. Contudo não culpava os reis cegos pela sua situação. Norton propunha e Surian realizava. Norton projetava e Surian construía. Acaso Norton desaparecesse, Surian o recriaria. Sem Norton nada seria diferente.
A princípio falou a Surian sobre seu excessivo envolvimento com o trabalho e reiterou espaço na vida do marido. Desejava que seus olhos a tocassem e o riso corresse solto em noites de caricia. Surian parecia escutá-la, mas tudo seguia como antes. A frequência das reivindicações cresceu. Malu chegou ao desespero. Gritou sua solidão e chorou a falta de cumplicidade. Exausta, desistiu, cobrindo o rosto com livros, revistas e devaneios.
Num desses dias iguais, repletos de inquietude e espera, apareceu Bed. Um homem comum que expunha sua arte na praia. Um estranho sem atrativos que morava em algum lugar distante ou em lugar algum. Custeava suas andanças com a venda de objetos artesanais. Pequenos objetos produzidos com cuidado e bom gosto. Belas peças em porcelana e fios variados.
Na primeira exposição do artesão a mulher adquiriu, para si, um par de presilhas. Noutras, vasculhava a pequena banca, apreciando um e outro objeto. Admirava, perguntava, as vezes comprava. A fidelidade foi recompensada com um anel em porcelana e fios de prata. Apaixonada pelo presente, decidiu que sinalizava um compromisso com a vida. Mas seguiu pretendendo que a vida acontecesse ao lado de Surian.
Estavam à mesa quando mencionou ao marido o desejo de aprender pintar e tecer. Ele, distante, limitou a resposta ao balanceio de cabeça. Ela insistiu. Ele baixou o jornal, esboçou um riso, qualificou a ideia de infantil e inconsequente e voltou a leitura. Ela, olhando a peça que adornava o dedo, desconsiderou. No mesmo dia procurou o artista que a aceitou como aluna.
No Bar D’ acontecia um tumulto e Malu esqueceu Surian e Bed. Neno, exaltado, enfrentava alguns rapazes. Garrafas quebradas contra uma faca afiada. Em segundos eram garrafas quebradas contra facas afiadas. Os acompanhantes de Neno haviam saltado das cadeiras, empunhando suas companheiras. Os rapazes partiram e Neno deixou de alardear bravura, cedendo ao afago da moça que cobria seu rosto com fumaça. Nada de novo, pensou. Concluindo que sem as confusões morreriam todos de tédio, Malu voltou ao licor.
Nas aulas com Bed conheceu entrega incondicional. Aprendeu a pintar fios, tecer pulseiras e transformar porcelanas em adornos. Enfeitou a casa com seus primeiros trabalhos, fez pequenos objetos para si, presenteou o marido com um prendedor para documentos em porcelana e madeira e experimentou o ressentimento pela indiferença. Mas os olhos de Bed reacendiam a emoção. O professor mostrava seu encantado pela artista, ainda tímida. Os olhos de cor indefinida e aprovação incontestável a incitava a criar e as peças eram multiplicadas.
Mais um gole de licor e Malu saudou à cumplicidade, deixou a varanda e foi deitar ao lado do marido adormecido.
Estavam novamente à mesa quando Malú foi tomada de surpresa pelo olhar atento de Surian que acabava de fechar o jornal. Quis saber de sua insônia e ela falou do espetáculo de Neno. Mas ao ouvir as condenações, reagiu com veemência inesperada. Atribuiu aos reis cegos a distribuição velada das drogas, incluiu Norton no jogo, previu a capitulação de Neno. Delatou a cegueira providencial do marido e gritou seu desejo de vida. Surian encerrou o confronto aludindo a imaginação fértil da mulher. Antes de partir sugeriu que aproveitasse as alucinações e escrevesse romances policiais.
Talvez a razão estivesse com Surian. Olhava aquele lugarejo pobre de histórias e desejos sem ver saída. Neno vendia suas mercadorias, os reis cegos construíam suas obras e Surian lia seus jornais. Além da arte e dos olhos de Bed nada havia além de noites torturantes e dias monótonos. Mas Bed não pertencia a cidadela nem aos reis cegos. Era do mundo e decidiu partir. Malu voltou à varanda e ao medo dos dias sem sonhos. Desatinada, não viu o Bar D’. Não viu seus clientes, suas vozes ou suas fumaças. A rua de areia cresceu. Virou deserto e isolou sua varanda do mundo. No entanto a lua insistia em pratear a noite e o vento sussurrava para que rompesse o invólucro. Malu saltou da mureta para a areia e seguiu sem rumo, de bar em bar. Entrou no Lua e Reggae e pediu gim. Sentou na borda da pista de dança ao ar livre, ignorou conhecidos e desconhecidos. Evitou uma briga que começou ao lado e voltou para as ruas. Entrou no Seresta, apreciou a música em violão e voz, ingeriu mais algumas doses de gim e desabou, chocada com as vozes que comentava a prisão de Neno. Uns o condenavam por roubos. Outros o defendiam, considerando as acusações duvidosas. Enojada, condenou o os reis cegos pela armadilha e ao marido pela conivência. Surian merecia um romance. Merecia que escrevesse e delatasse o que via. Sufocava. Acabaria estrangulada. Sucumbiria aos reis cegos, como Neno havia sucumbido.
Deixou bar, percorreu becos e ruelas, encontrou gente embriaga, filhos de antigos pescadores, reduzidos a servidores dos reis cegos e consumidos pelo pó, distribuído em noites de sexta e sábado. Seguiu cambaleante, conjugando o verbo aloprar.
Eu alopro, tu alopras, ele alopra… esse verbo não existe. Não existia. Norton inventou. Ou fui eu? Pode ter sido o outro rei cego. Aquele da mulher louca. Eu louqueio, tu louqueias, ele louqueia. Ele não. Ele criou o verbo para ela. Ela louqueia para que ele seja rei. Rei cego. Não há pior rei. Em terra de cego, aquele que tem meio olho é rei. Quem tem um é morto ou expulso. Quem tem dois, brinca de cego ou de louco. Ou faz as malas.
Aportou aos pés das dunas e num repente, começou a rir do ritual que os turistas repetiam em tardes de lua cheia. Subiam, sentavam no topo de uma delas e esperavam para ver simultaneamente o pôr do sol e o nascer da lua. Riu, cansou e começou a discursar.
Aos deslumbrados e simplórios senhores que imaginam uma aventura incomum eu digo: os indígenas vivem esse encontro todo dia e não pagam nada ao Norton. Eles não têm reis cegos. São sábios. Não têm rei algum. Mas também não têm a lua. Norton e os outros reis cegos a surrupiaram. Precisavam dela para vender aos turistas. Surrupiaram e engaiolaram. Agora a lua só aparece para cumprir o contrato. Nunca mais será livre. Nunca mais. Pois desafio os reis cegos e vou buscar minha lua, sem pagar nada além do que já roubam a cada dia.
Sem hesitar, seguiu duna acima. Atolando os pés, pisando em falsete, avançava enfrentando o vento. A areia batia dolorosamente no corpo enquanto rodopiava e declarava guerra ao medo e a inércia. Num exercício frenético, quase alucinado, atingiu o topo , gritando seu desejo de desnudar a vida. Depois, exausta, respirou o ar da noite, sentou sobre a areia, olhou o mar e chorou. Aliviada, retornou, escorregando pela face oposta. Faltava pouco para o sol apontar quando exaurida desabou ao lado do marido adormecido.
Malu não tomou café com Surian, nem viu o marido ler o jornal ou sair para o trabalho. Quando deixou o refugio, deparou com o bravo Neno, que mostrava seu reverso. Os cabelos revoltos tinham desaparecido e no lugar da farta barba negra, emergiu um rosto afilado e magro. O peito antes pontudo e estufado, estava murcho. Encolhido atrás do chapéu, se esgueirou pela rua e sumiu. Neno e Bed partiram na manhã de sol exuberante e de vento sussurrante, que incitava revolução.
Antes que Surian retornasse, Malú tomou uma grande bolsa e nela alojou seus trabalhos. Em outra colocou uma pequena quantidade de roupas e pertences. Completou com os muitos fios e tintas que imaginou precisar. Iniciou uma longa carta, descrevendo suas necessidades e motivos. Não concluiu. Certa de que o marido já os conhecia, rasgou e rabiscou um bilhete, prometendo mandar noticias.

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O Grande Barco

mar 7, 2016 por

barconevA pele tostada e as mexas claras no cabelo avermelhado eram marcas indiscutíveis dos dias passados ao sol. As manobras diárias com as velas mantinham os músculos visíveis e fortes. Em sua meia idade, Miro não chegava a ser um homem bonito, ainda que esbanjasse energia.
Joah, dono de traços refinados e cabelos negros, herdados da mãe, ganhava a mesma energia e vigor. A semelhança retratava a aliança forjada pelo mar.
Viajavam sem discutir motivos. Joah gostava do mar, dos portos e praias em que atracavam e, sobretudo, amava o pai. Da vida pregressa de Miro, sabia pouco. Após um naufrágio, foi recolhido pelos pescadores de Sant’ana que aceitaram sua história, usufruíram suas habilidades com as madeiras e ele entregaram a construção e reparo de seus barcos. Mais tarde tornou-se parte de antiga família de pescadores, casando com Eny. Teve com ela um filho e pretendia outros, mas Eny morreu, o deixando com os olhos voltados para o mar.
O balanço provocado pelas ondas, os pés em terras desconhecidas, os olhos em paisagens inóspitas eram desejos indomados que aumentavam enquanto o filho crescia. A necessidade de partir fez-se incontestável. Com a ajuda de Joah construiu a embarcação dos sonhos. Transpôs para a madeira a imagem do Grande Barco, do qual fora arrancado ainda jovem, por estranha tempestade. Concluída a tarefa, partiram sem delimitar tempo ou direção. Seguiam ancorando, zarpando, percorrendo rotas às vezes traçadas pela necessidade de obter suprimento ou reparo e outras, definidas pelo desejo inexplicável que invadia Miro.
“Seguimos o sol”, dizia Joah quando interpelado por curiosos. O descompromisso era simulado já que Miro gastava horas, às vezes dias, vasculhando cartas marítimas ou marcando linhas diversas. O último dos destinos também foi traçado pela força do ímpeto. Um mapa numa tenda onde faziam uma refeição encantou o navegante. A ilha de Jatah o chamava e Miro sentia necessidade premente de atendê-la.
Atracaram em Jatah como quem atraca no vazio. Assim sentia Joah ao admirar a larga e interminável faixa de areia quase prata que embainhava o mar calmo e repetitivo. Nenhuma vegetação. Nada de cores diversas, nada de pescadores, nenhum murmuro. Apenas calmaria e um incessante zumbido.
O sol ia e voltava enquanto Miro, da proa ou da areia, olhava a imensidão azul. Joah o deixava. Mergulhando, pescando ou cozinhando, aguardava. No terceiro dia viu o pai riscar nova rota. Compreendeu que partiriam.
O pequeno barco venceu ilhas de indescritíveis contornos, pontos rochosos que surgiam do nada e bancos de corais desnudados pela água límpida. Depois do espetáculo irreal, ilhas de pura areia em mar de calmaria, pintado com cores de arco íris.
“Navegar é transpor paisagens”, registrava Joah. E as cores foram transpostas. Desapareceram repentinamente levando consigo o brilho do sol. À frente, apenas mar e céu acinzentados.
“Navegar é transpor paisagens. Basta navegar, navegar, navegar”, continuava Joah, esperando o surgimento de novas cores. Mas antes que o cinza fosse transposto, uma forte bruma os envolveu. E antes que pudessem recorrer aos aparelhos, a tempestade os tomou, alardeando perigo.
– Recolha as velas! – gritava Miro.
– Amarre a corda. Prenda no mastro!- continuava.
“Navegar é contínua superação”, confabulava Joah, enquanto às cegas, obedecia às ordens do pai. Superariam a tempestade, acreditava. Mas as ondas eram maiores que o barco e o tomaram. Invadiram o convés, arrancaram Miro do leme, jogaram Joah contra o mastro. Uma onda menor, outra maior e outras tantas mais! Pai e filho não tinham tempo para manobras. Entre ondas surgiu uma embarcação à deriva. A inevitável colisão os lançou ao mar.
Já não havia ondas ferozes, só cinzenta calmaria, quando se descobriram resgatados e acolhidos em estranho convés. Miro, ainda atabalhoado, viu desfilar, um a um, do mais velho ao mais novo, antigos companheiros. Em oposição ao filho, não desejou discernimento. Reencontrara o Grande Barco, aquele do qual fora lançado, tal qual era em tempos idos, e isso era mais que poderia desejar ou imaginar.
Efusivo, buscou a cada um para saudações e abraços. Mas os abraços não aconteceram. Miro insistia, mas de imediato recebeu instrumentos para que ajudasse na tarefa comum a todos – retirar, incansavelmente, a água que invadia a embarcação.
Joah que a tudo assistia, recorreu ao pai, propondo aliança. Mas Miro, tomado pela grande tarefa, ordenou que fizesse o mesmo e que não negligenciasse. Assustado, o rapaz fugiu para a proa. Acuado olhava o mar, as pessoas em seus movimentos infinitamente repetidos e a paisagem, nunca alterada. Perplexo, constatou que o percurso não era mais que um grande círculo, regularmente traçado, sem ponto de partida ou chegada. De imediato se arvorou em desviante, batendo com insistência contra o leme, que parecia travado! O leme e tantos outros instrumentos. Todos emperrados.
Parecia não existir saída, mas atentando para detalhes, o rapaz descobriu entre apetrechos jogados ao chão, estranhos imãs. Tomou um punhado deles e passou a examinar suas estranhas formas. Pareciam formar um quebra cabeça disforme e tridimensional. Enquanto juntava partes, percebeu leve movimento nos ponteiros de alguns instrumentos. Decidiu adicionar essas estranhas peças aos comandos. Percebeu um pequeno movimento na grande rota e festejou. Ainda adicionava partes à estrutura quando, tomado por imensa onda, foi lançado ao mar. O grito estridente foi reconhecido por Miro e a dor o sacudiu Miro. Sem hesitar, o homem se atirou às ondas, chamando pelo filho até a exaustão.
Recolhidos pelos pescadores, reencontraram-se em Sant’ana.

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Julia

fev 18, 2016 por

dsc_0173 (cópia)Noite de homenagens e Julia era a estrela maior. Os anos longe dos palcos não a afastavam das lentes nem dos holofotes. Júlia, no entanto, não desejava lentes ou holofotes, por isso quando a repórter perguntou se gostaria de ser mais jovem ela alargou os cantos da boca, franziu os olhos e balançou a cabeça negativamente. A moça insistiu e a mulher, concisa e calma reforçou: nenhum minuto mais jovem.
Detrás, o homem que ela não pode ver, gritou: algum momento em sua vida ao qual queira retornar?
Julia fez uma pequena pausa, girou o corpo, procurou o rosto do jovem e disparou: nenhum. Ele persistiu: não tem saudades do palco? Depois do categórico não, a mulher sorriu, movimentou os ombros e justificou: o palco já foi experimentado à exaustão. Deixemos os refletores aos que despontam.
Mais tarde, frente ao espelho, suspirou, deixando que os ombros arcassem e o queixo apontasse para o pescoço. A fantasia não seguia porta à dentro. Ela havia cuidado para que invadisse a vida daqueles que não habitavam as barras e as sapatilhas de ponta, mas já não a cultivava na intimidade.

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O Barqueiro

fev 13, 2016 por

barqueiro03Do barqueiro ninguém sabia o nome, se é que o tinha. Todos o conheciam, mas ignoravam sua história pregressa. Sabiam apenas que um dia, num ano distante, instalara ali sua barca e iniciara sua atividade. Desde então, se mostrava incansável. Começava o trabalho ainda com as estrelas no céu e seguia ao ritmo do rio até que o crepúsculo restaurasse o brilho das mesmas. Repetia o rito ininterruptamente, sem obedecer a quaisquer regras sociais ou religiosas que indicassem descansos regulares. Somente os percalços naturais o desviavam. Chuva torrencial e ventos fortes levavam-no ao ócio.

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