Lá vem Maria

TRILOGIA DA FENIX: O DIA DA RAIVA SEM CULPA

nov 19, 2011 por

Era um sentimento mudo. Tomava o corpo desde os poros do couro cabeludo às unhas dos pés e a paralisava. Não cabiam definições, frases, palavras. Não cabia nem mesmo um ponto de interrogação ou exclamação. O bloqueio tomou sua capacidade de pensar palavras, de pensar ações, de pensar…
Transferindo peso do corpo para o batente da porta, prendeu os olhos no homem esguio que ria e ria de uma bobagem qualquer dita pela mulher que à frente, tagarelava.

Na passagem, o garçom esticou o braço com a bandeja e, no automatismo, ela apanhou uma taça.
Não faria nada, não diria nada, não demonstraria nada, pois não era de sua natureza deixar-se conhecer. Continuaria imobilizada, mas superior à deslealdade de seu opositor.

Na passagem o garçom esticou o braço com a bandeja e, no automatismo, ela trocou a taça.
Não permitiria que soubessem da natureza de seus sentimentos. Emudeceu as emoções. Continuou a olhar o homem elegante que bebia e falava para três ou quatro pessoas afáveis e risonhas.

Na passagem o garçom esticou o braço com a bandeja e, no automatismo devolveu a taça vazia e apanhou outra, que transbordava.

Era um sentimento torpe. Retesava os músculos, contraía tendões, deixava o peito opresso. Não devia fazer parte de sua natureza, mas era impossível negá-lo. Olhava o homem que antes provocara ruptura em sua muralha, forjando afeto e contra vontade se apropriava da palavra dita pelo corpo: raiva.

Na passagem o garçom evitou esticar o braço com a bandeja, mas ela o chamou e trocou a taça vazia por outra, repleta do líquido transparente e borbulhante.
Vivia em equilíbrio, sem grandes tropeços ou emoções. E para que serviam as emoções, senão para quebrar a serenidade? Mas o homem de gestos graciosos, que do outro lado do salão franzia a testa ao vê-la grudada ao batente, apareceu na estética de sua propriedade, a esperou depois do expediente, insistiu que o acompanhasse ao bistrô visinho, ligou, mandou flores, provocou sua entrega, freqüentou seu círculo de amigos, galgou posições sociais, traiu sua confiança, provocou frustração e a fez dona de intensa raiva.

O garçom evitou aproximar-se, mas ela deixou o recosto, foi até a bandeja e mais uma vez trocou a taça vazia por outra, repleta de champanhe. Continuou andando, atravessou o salão sem desgrudar os olhos do individuo alinhado e sedutor que caminhava ao seu encontro.

Era um sentimento lícito, definitivamente apropriado, completamente pertinente. Mas não quis carregar a raiva consigo e frente àquele que antes a fizera sonhar, a expressou sem travas. Ainda o ouviu considerar sua possível embriaguez, mas não deu trela à opinião. Depositou a taça na bandeja, andou rumo à porta, parou, voltou o corpo e declarou: hoje é meu dia de embriagues sem pudor e da raiva sem culpa.
Ciente que dava conta das frustrações, antes de dormir fez votos de viver novos riscos, mas também firmou propósito de cuidar para que seus sentimentos não servissem à manipulação.

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AMORES DE BRANCONA

out 1, 2011 por

Todos se referiam a ela como “a brancona”. Poderiam chamá-la de “a estranha”, “a esquisita”, “a reclusa” e qualquer dos apelidos refletiriam, com honestidade, sua condição. Mas na vila de pescadores todos eram morenos jambo ou negros, viviam expostos ao sol escaldante e à água salgada do imenso mar. Ela, ao contrário, dona de pele branca que rejeitava os intensos raios da linha do Equador, não se expunha.
Ganhou o apelido, riu quando a avisaram do adereço e continuou a cuidar do que deveria ser cuidado.

A brancona tinha sonhos que não compartilhava. Tinha projetos  a espera do tempo certo para germinar. Tinha, principalmente, dois imensos afetos, que apesar dos destemperos, cultivava no cotidiano.

O dia de afazeres começava antes das sete da manhã e seguia sem pausa até as sete da noite. E então, seus amores, que durante o dia, alimentava e vigiava nas brechas da labuta, ganhavam o primeiro plano.
Quando o mais novo dos meninos completou seis meses, decidiu que estava na hora de incluir pequenos passeios à vida de quase clausura. E sob a lua, saía pelo vilarejo, carregando o mais novo grudado ao peito, apoiado pelo apetrecho de pano e o mais velho atracado a uma das mãos.

No primeiro passeio a brancona ganhou nova designação. Passou a ser a “mãe do galeguinho”. E galeguinho era celebridade. O primogênito, tendo herdado a boa pele do pai, rodava a vila com ele, expondo os cabelos loiros que o sol havia prateado e fazendo admiradores por sua eloquência.
A princípio a brancona riu do novo título, mas não deixou de sentir incomodo pelo assédio ao filho, que achou excessivo. Temeu que a diferença de cabelo e pele desencadeasse presunção, mas não desistiu dos passeios noturnos. Todavia  impôs distância aos fãs do menino. Enquanto vencia as ruas, cumprimentava a todos com simpatia, mas nunca parava nas rodas de prosa, nem dava trela aos confetes de alguns insistentes.
Tomou como regra, seguir no embalo da brisa, até a sorveteria. Lá, continha o riso, vendo o menino de colo, avançar sobre o sorvete do irmão logo que o seu acabava. Achava exagero dar-lhe um sorvete inteiro, mas cedeu à gula do pequeno às reclamações do galeguinho.
No percurso de volta para casa, a parada no forró era obrigatória. Ficava à porta com o menor, enquanto dava ao outro, a chance de rodopiar na pista, até cansar.

Os filhos encerravam a noite na rede. Cada qual de um lado da mulher, que ao meio, cantarolava misturas de folclores e coisas inventadas, até que adormecessem.  Depois de colocar cada qual em sua cama, brancona gastava bom tempo cultivando a ternura desabrochada daqueles rostos doces. Só então, com a alma apaziguada ia alimentar os outros sonhos, para que ganhassem corpo na mesma medida que haveriam de crescer os seus meninos.

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