Lá vem Maria

AMORES DE BRANCONA

out. 1, 2011 por

Todos se referiam a ela como “a brancona”. Poderiam chamá-la de “a estranha”, “a esquisita”, “a reclusa” e qualquer dos apelidos refletiriam, com honestidade, sua condição. Mas na vila de pescadores todos eram morenos jambo ou negros, viviam expostos ao sol escaldante e à água salgada do imenso mar. Ela, ao contrário, dona de pele branca que rejeitava os intensos raios da linha do Equador, não se expunha.
Ganhou o apelido, riu quando a avisaram do adereço e continuou a cuidar do que deveria ser cuidado.

A brancona tinha sonhos que não compartilhava. Tinha projetos  a espera do tempo certo para germinar. Tinha, principalmente, dois imensos afetos, que apesar dos destemperos, cultivava no cotidiano.

O dia de afazeres começava antes das sete da manhã e seguia sem pausa até as sete da noite. E então, seus amores, que durante o dia, alimentava e vigiava nas brechas da labuta, ganhavam o primeiro plano.
Quando o mais novo dos meninos completou seis meses, decidiu que estava na hora de incluir pequenos passeios à vida de quase clausura. E sob a lua, saía pelo vilarejo, carregando o mais novo grudado ao peito, apoiado pelo apetrecho de pano e o mais velho atracado a uma das mãos.

No primeiro passeio a brancona ganhou nova designação. Passou a ser a “mãe do galeguinho”. E galeguinho era celebridade. O primogênito, tendo herdado a boa pele do pai, rodava a vila com ele, expondo os cabelos loiros que o sol havia prateado e fazendo admiradores por sua eloquência.
A princípio a brancona riu do novo título, mas não deixou de sentir incomodo pelo assédio ao filho, que achou excessivo. Temeu que a diferença de cabelo e pele desencadeasse presunção, mas não desistiu dos passeios noturnos. Todavia  impôs distância aos fãs do menino. Enquanto vencia as ruas, cumprimentava a todos com simpatia, mas nunca parava nas rodas de prosa, nem dava trela aos confetes de alguns insistentes.
Tomou como regra, seguir no embalo da brisa, até a sorveteria. Lá, continha o riso, vendo o menino de colo, avançar sobre o sorvete do irmão logo que o seu acabava. Achava exagero dar-lhe um sorvete inteiro, mas cedeu à gula do pequeno às reclamações do galeguinho.
No percurso de volta para casa, a parada no forró era obrigatória. Ficava à porta com o menor, enquanto dava ao outro, a chance de rodopiar na pista, até cansar.

Os filhos encerravam a noite na rede. Cada qual de um lado da mulher, que ao meio, cantarolava misturas de folclores e coisas inventadas, até que adormecessem.  Depois de colocar cada qual em sua cama, brancona gastava bom tempo cultivando a ternura desabrochada daqueles rostos doces. Só então, com a alma apaziguada ia alimentar os outros sonhos, para que ganhassem corpo na mesma medida que haveriam de crescer os seus meninos.

Posts Relacionados

Compartilhar

2 comentários

  1. Haruan

    Guardei no coração o texto.
    Muito obrigado!

  2. Isadora Zamarque

    Conheço essa historia. Ótimo texto!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *