Lá vem Maria

OPS! DEFLOCULEI OS NÓS.

jul 23, 2011 por

Acordei estranha. Bem estranha.
Ao sair da cama portava uma leveza de quem perdeu alguns quilos enquanto dormia. Olhei a imagem do espelho e os quilos estavam no mesmo lugar, mas a leveza persistiu. E além dela, outros sintomas fenômenos: maleabilidade, mobilidade, alegria, disposição.
Não dava pra deixar rolar e então, enquanto organizava o material necessário ao dia de trabalho fui puxando os fios de alguns nós. Lembrei as rasteiras que levei e elas já não eram rasteiras, mas fatos consumados e agora descartados, que naqueles momentos serviram para alguma coisa que não lembro. Pensei nas pessoas que me magoaram, mas a mágoa já não estava lá. E as lembranças apareceram em companhia de um discernimento constrangedor. Uma espécie de entendimento multifacetário que meu repertório não permite explicar. E as dores? Essas, creio, entraram em férias ou partiram sem qualquer aviso. A decepção, onde foi parar? Os feixes de frustração?
ilustração: Erly RicciSem mais nem menos, acordei com a  respiração fácil,  bem estar corporal e fluidez das boas emoções: coisas esquisitas acontecendo num dia comum de trabalho. O jeito foi acomodar-me ao imprevisto e começar a produção dos objetos de cerâmica. Primeiro, a água no batedor de barbotina. Depois, com a máquina em atividade, a argila seca adicionada aos poucos, junto com um tanto de caulim e outro de filito. Ao creme tão espesso quanto vitamina de abacate adicionei, para finalizar, gotas de defloculador. Num instante, o creme virou líquido fino, que rodava ao impulso da hélice, exibindo mechas acetinadas.

OPS! Entendi a estranheza toda!

Cinco meses de Florais de Bach e defloculei os nós.

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MEU PAI, O PAI DE MEUS FILHOS, MEUS FILHOS

jul 21, 2011 por

“Os homens são difícies…permita-me dizer de que maneiras.”
A declaração não foi feita por uma mulher, mas por um homem, psicólogo, autor do livro “SE OS HOMENS FALASSEM… “. Ainda não li a obra de Alon Gratch, mas o titulo do primeiro capítulo, a frase inicial do texto, fez com que a vasculhasse ligeiramente. Conclui que o livro merece atenção. Mas antes é relevante declarar: não sei como serão os filhos de meus filhos, mas reconheço nas três gerações pelas quais transito,  a silenciosa transformação da condição masculina.

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O CAMINHO DO OUTRO

jul 15, 2011 por

 

Certo, errado, bom, ruim, bonito, feio, confiável, desonesto: ínfima lista de infinitos julgamentos.

Alegria e tristeza, vitória e fracasso, reconhecimento  e anonimato,  frustração e realização: poucos exemplos de inúmeras polarizações .

Ética, justiça, disciplina, integridade, confiabilidade, desapego, força, determinação:  alguns valores que sustentam julgamentos e posições.

É possível explicar condutas  a partir dos valores. Mas não sei se a teorização nos possibilita compreender o outro.

foto:silzi mossato

 

Há quem faça das habilidades, dádivas. Outros, sementes em solo árido.

Uns brilham sem grandes esforços.Outros colhem parcos frutos depois de muita labuta.

 

Cada individuo vive sua história como mergulhador em mar denso. Mas basta olhar a distância para  enxergar saídas, caminhos e possibilidades que o dono de outra história não vê. E sem discernimento,  o julgamos. Ou tentamos incansavelmente apontar uma direção, mostrar rotas,  puxar pela mão, empurrar para situações que avaliamos como a melhor.

A vida, enfim nos diz: O CAMINHO DO OUTRO É DO OUTRO. Podemos estender a mão, apoiar, ajudar, mas cabe a cada pessoa  a escolha e suas consequências.

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MEU PÉ DE MAMÃO RENASCIDO

jul 7, 2011 por

Não tenho um jardim como gostaria. Apenas três canteiros espremidos contra o muro e, do outro lado, uns quatro metros quadrados de terra, com palmeiras ao centro, orquídeas e bromélias incrustadas e ao redor.

No primeiro canteiro, espadas de São Jorge, samambaias e um pé de limão que apesar de lançar raízes rentes ao muro, insiste na produção farta. Nos outros decidi plantar coisas comestíveis, como taiá e hortelã. Mas sempre quis conviver com uma árvore de muitas flores e de posse de um galho de buganvil, enterrei como mandam as senhorinhas de lugar. Comemorei as primeiras folhas, mas mal deram sinal de vida e morreram. Ao mesmo tempo havia jogado ao acaso algumas sementes de mamão. Elas brotaram formando amontoado de pés de mamão em meio as ervas daninhas que cresceram em tempo de muita chuva. Era preciso retirar as ervas, mas com elas acabei arrancando um pezinho de mamão. Menor que os demais, havia ficado escondido entre as folhas das plantas intrusas.

Puxa, que pena! Se tivesse prestado um pouquinho mais  de atenção!

meu pé de mamão renascido

Apressei o replantio. Cavei ao lado, cuidei pra que a cova envolvesse, sem entortar, a raiz pontiaguda e fina. Depois de assentar a terra joguei  um pouco de água e o amparei comuma estaca. Mas, horas depois as folhas arriaram e o caule debruçou sobre a madeira. Causa perdida. Mas já que estava perdida, podia experimentar sem culpa. Tomei um pouco de água mineral  e adicionei umas gotinhas da minha fórmula floral. Uma espécie de travessura de criança, mas que não conseguia deixar de fazer. Fiz e aguardei. Um dia, dois dias, três dias. O mamoeiro continuava arqueado e eu frustrada.  Deixei de acompanhar  até que de repente, passando os olhos pelo local descobri uma folhinha. Voltei a seguir a plantinha. Vi surgiu mais uma folha e depois outra e outra.

Conclui: se serviu pro mamoeiro, serve pro buganvil. Corri, arranquei o galho aparentemente seco, replantei  e reguei com gotas do floral. Enquanto aguardava, passei a mostrar aos visitantes meu pé de mamão renascido.

Lendo novos textos a respeito dos Florais de Bach descobri que não há nada de novo na minha experiência, mas continuo mostrando àqueles que me visitam  o meu pé de mamão renascido, agora acompanhado do buganvil, já com o segundo galhinho repleto de folhas.

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UM MANUAL, POR FAVOR

jul 5, 2011 por

Estamos na estrada, passos automatizados, rumo aos sonhos ou simplesmente vencendo distâncias. Talvez no ar, sobre a corda bamba, equilibrando e desenrolando nossos fios. Ou no mar, nadando e boiando de acordo com ondas e marés. Mas, nalgum ponto, alguma coisa avisa: é hora de mudança. Rever pontos de vista, colocar valores na berlinda, traçar novos planos, experimentar outros lados, aprender o que ainda está à espera.

Sejamos honestos: não somos chegados às transformações. Melhor: não somos chegados às nossas transformações.

O que fazemos?
Vamos levando. Adiamos. Deixamos pra logo ali, à frente. Postergamos.
A vida, essa que a gente gostaria de ter sob custódia, avisa. Dá recados. Faz sinal de alerta. Enfim, nos dá uma rasteira e ai tudo vira de pernas pro ar.
Crises deveriam vir com manual em bom português e também em quadrinhos animados. Mas não. Chegam desnudas e nos deixam sem nada sob os pés. Não bastasse, lançam zumbidos aos ouvidos, embaçam a visão, deixam pensamentos em desalinho e o peito, pobre peito, repleto de agonia.
Discriminar? Discernir? Distinguir? Divisar? Diferenciar? Verbos e mais verbos que costumeiramente não acompanham as crises. E elas são parte inalienável da vida. Ocorrem de tempos em tempos, impulsionam o crescimento, nos obrigam a amadurecer. Isto pra quem dá conta de emergir.
Pedimos socorro. Queremos que aqueles que nos cercam lancem luz ao nosso caos. Mas nada funciona, exceto, trilhar o caminho, passo a passo, até a próxima estação. E chegamos diferenciados. Com novas perspectivas. Ou magoados. Cheios de cicatrizes que insistem em não ceder ao tempo.
Podemos escolher. Carregamos o fardo até a próxima crise ou comemoramos o fato de termos dado conta da passagem.

Desta vez tive sorte. Um médico intuitivo receitou uma fórmula floral e uma pessoa querida trouxe de volta meu exemplar de Passagens – Crises Previsíveis da Vida Adulta, da jornalista Gail Sheery. Grandes ajudas. Não tenho um manual, mas posso vislumbrar caminhos.

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