Lá vem Maria

O Grande Barco

mar. 7, 2016 por

barconevA pele tostada e as mexas claras no cabelo avermelhado eram marcas indiscutíveis dos dias passados ao sol. As manobras diárias com as velas mantinham os músculos visíveis e fortes. Em sua meia idade, Miro não chegava a ser um homem bonito, ainda que esbanjasse energia.
Joah, dono de traços refinados e cabelos negros, herdados da mãe, ganhava a mesma energia e vigor. A semelhança retratava a aliança forjada pelo mar.
Viajavam sem discutir motivos. Joah gostava do mar, dos portos e praias em que atracavam e, sobretudo, amava o pai. Da vida pregressa de Miro, sabia pouco. Após um naufrágio, foi recolhido pelos pescadores de Sant’ana que aceitaram sua história, usufruíram suas habilidades com as madeiras e ele entregaram a construção e reparo de seus barcos. Mais tarde tornou-se parte de antiga família de pescadores, casando com Eny. Teve com ela um filho e pretendia outros, mas Eny morreu, o deixando com os olhos voltados para o mar.
O balanço provocado pelas ondas, os pés em terras desconhecidas, os olhos em paisagens inóspitas eram desejos indomados que aumentavam enquanto o filho crescia. A necessidade de partir fez-se incontestável. Com a ajuda de Joah construiu a embarcação dos sonhos. Transpôs para a madeira a imagem do Grande Barco, do qual fora arrancado ainda jovem, por estranha tempestade. Concluída a tarefa, partiram sem delimitar tempo ou direção. Seguiam ancorando, zarpando, percorrendo rotas às vezes traçadas pela necessidade de obter suprimento ou reparo e outras, definidas pelo desejo inexplicável que invadia Miro.
“Seguimos o sol”, dizia Joah quando interpelado por curiosos. O descompromisso era simulado já que Miro gastava horas, às vezes dias, vasculhando cartas marítimas ou marcando linhas diversas. O último dos destinos também foi traçado pela força do ímpeto. Um mapa numa tenda onde faziam uma refeição encantou o navegante. A ilha de Jatah o chamava e Miro sentia necessidade premente de atendê-la.
Atracaram em Jatah como quem atraca no vazio. Assim sentia Joah ao admirar a larga e interminável faixa de areia quase prata que embainhava o mar calmo e repetitivo. Nenhuma vegetação. Nada de cores diversas, nada de pescadores, nenhum murmuro. Apenas calmaria e um incessante zumbido.
O sol ia e voltava enquanto Miro, da proa ou da areia, olhava a imensidão azul. Joah o deixava. Mergulhando, pescando ou cozinhando, aguardava. No terceiro dia viu o pai riscar nova rota. Compreendeu que partiriam.
O pequeno barco venceu ilhas de indescritíveis contornos, pontos rochosos que surgiam do nada e bancos de corais desnudados pela água límpida. Depois do espetáculo irreal, ilhas de pura areia em mar de calmaria, pintado com cores de arco íris.
“Navegar é transpor paisagens”, registrava Joah. E as cores foram transpostas. Desapareceram repentinamente levando consigo o brilho do sol. À frente, apenas mar e céu acinzentados.
“Navegar é transpor paisagens. Basta navegar, navegar, navegar”, continuava Joah, esperando o surgimento de novas cores. Mas antes que o cinza fosse transposto, uma forte bruma os envolveu. E antes que pudessem recorrer aos aparelhos, a tempestade os tomou, alardeando perigo.
– Recolha as velas! – gritava Miro.
– Amarre a corda. Prenda no mastro!- continuava.
“Navegar é contínua superação”, confabulava Joah, enquanto às cegas, obedecia às ordens do pai. Superariam a tempestade, acreditava. Mas as ondas eram maiores que o barco e o tomaram. Invadiram o convés, arrancaram Miro do leme, jogaram Joah contra o mastro. Uma onda menor, outra maior e outras tantas mais! Pai e filho não tinham tempo para manobras. Entre ondas surgiu uma embarcação à deriva. A inevitável colisão os lançou ao mar.
Já não havia ondas ferozes, só cinzenta calmaria, quando se descobriram resgatados e acolhidos em estranho convés. Miro, ainda atabalhoado, viu desfilar, um a um, do mais velho ao mais novo, antigos companheiros. Em oposição ao filho, não desejou discernimento. Reencontrara o Grande Barco, aquele do qual fora lançado, tal qual era em tempos idos, e isso era mais que poderia desejar ou imaginar.
Efusivo, buscou a cada um para saudações e abraços. Mas os abraços não aconteceram. Miro insistia, mas de imediato recebeu instrumentos para que ajudasse na tarefa comum a todos – retirar, incansavelmente, a água que invadia a embarcação.
Joah que a tudo assistia, recorreu ao pai, propondo aliança. Mas Miro, tomado pela grande tarefa, ordenou que fizesse o mesmo e que não negligenciasse. Assustado, o rapaz fugiu para a proa. Acuado olhava o mar, as pessoas em seus movimentos infinitamente repetidos e a paisagem, nunca alterada. Perplexo, constatou que o percurso não era mais que um grande círculo, regularmente traçado, sem ponto de partida ou chegada. De imediato se arvorou em desviante, batendo com insistência contra o leme, que parecia travado! O leme e tantos outros instrumentos. Todos emperrados.
Parecia não existir saída, mas atentando para detalhes, o rapaz descobriu entre apetrechos jogados ao chão, estranhos imãs. Tomou um punhado deles e passou a examinar suas estranhas formas. Pareciam formar um quebra cabeça disforme e tridimensional. Enquanto juntava partes, percebeu leve movimento nos ponteiros de alguns instrumentos. Decidiu adicionar essas estranhas peças aos comandos. Percebeu um pequeno movimento na grande rota e festejou. Ainda adicionava partes à estrutura quando, tomado por imensa onda, foi lançado ao mar. O grito estridente foi reconhecido por Miro e a dor o sacudiu Miro. Sem hesitar, o homem se atirou às ondas, chamando pelo filho até a exaustão.
Recolhidos pelos pescadores, reencontraram-se em Sant’ana.

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