Lá vem Maria

A LITERATURA DE JOAQUIM SIMÕES

set. 25, 2015 por

livros de Joaquim simões

livros de Joaquim simões

 

Faz pouco, concluí a leitura dos livros de Joaquim Simões. Sempres (poesia) li em 2014,  antes do lançamento oficial. O Fusquinha de Rosinha Albuquerque (crônicas) e Mamãe e o complexo do ovo (contos) foram as companhias na viagem da última semana, pela mineirice do avô materno que pouco conheci, mas que atravessou geração para impregnar meu jeito de ler o mundo. Desta viagem replico, sem pedir permissão ao autor, um pedacinho de “Véspera”, um dos contos que me cativaram.
“Como não me lembrar daquele festeiro moço sempre brincando, fazendo comentários tão óbvios, e ao mesmo tempo tão estonteantes, a respeito disto ou daquilo? Eu embasbacado? Só me restava chacoalhar a cabeça e concordar: é mesmo, né pai? ele ria de minha cordata idiotice, seus olhos claros me atravessando, como um alvo rio sereno atravessa, pelo meio, o verde e um arrozal.”

Boa surpresa para literatura Curitiba.

 

ler mais

Posts Relacionados

Compartilhar

ELE QUEBROU MINHAS LENTES COLORIDAS

ago. 9, 2015 por

Cresci no regime militar. Vivi a adolescencia e a juventude numa ditadura. Não fui vitima direta, não esbarrei na opressão, não sofri as consequencias imediatas do desvio do caminho. O regime pareceu não nos atingir, exceto quando o bom homem, prefeito da cidadezinha onde nasci, deixou o cargo e a família e fugiu para não ser preso. Ele era comunista e com o golpe os comunistas perdiam a condição de pessoas e se transmutaram em inimigos da pátria.
Semelhante a uma de forasteira desatentatransitei protegida pela feiura que atingia o país. Em 1970 segui os adultos do entorno e vibrei com a conquista do tetra. Vi os jogos, comemorei as vitorias e desfilei pelas ruas, tomada pelo sentimento de bem estar que o título oferecia.
Na época, por escolha de minha mãe, estudava em um colégio da rede Marista e lá continuei mais cinco anos, aprendendo o que a neutra ciencia tem a oferecer. Atualmente diriam que era uma educação não ideologizada e até alguns anos atrás eu concordaria. Hoje, não mais. Sei que há uma ideologia impregnada nos conteúdos de versão única – a do vencedor ou do dominador, como me parece mais correto qualificar.
Tinha pouco mais de 18 anos quando o mundo das fórmulas neutras sofreu a primeira rachadura. Estava em Campo Grande, atual capital do Mato Grosso do Sul, hospedada na casa de uma família que alugava dois de seus quartos. Aguardava o vestibular e no intervalo dos estudos exercia o direito inalienável de quem ainda está com um pé na adolescencia: experimentar, ser inconsequente e incoerente, fazer coisas estúpidas e aprender com os erros.
Lá vivia um homem, funcionario público, respeitoso e reservado. Ele era psicólogo e eu, vestibulanda de psicologia. A coincidencia nos permitia algumas conversas cordiais, mas não tinha lucidez suficiente para aproveitar a oportunidade e aprender com a simples troca de experiências.
Não lembro o nome do homem; não saberia calcular sua idade e se perguntei qualquer coisa sobre sua vida, ficou no esquecimento. Resgato uma situação, um único fato que veio à tona após assistir uma série de videos de entrevistas com adolescentes que foram ao ato de 15 de março deste ano de 2015.
Não sei exatamente de que falávamos ou por que falávamos, mas lembro de meu arroubo de arrogância adolescente, afirmando, com o mais completo desconhecimento de causa, que o governo militar era bom para o Brasil.
Antes que concluisse o argumento a voz contundente retrucava: nunca fale daquilo você não sabe!
Percebo que com o tempo o ambiente onde estávamos virou esboço, mas as palavras do homem não. Estão marcadas com tamanha clareza que quarenta anos parecem dias. Mesmo assim afirmo que não foi sua a fala que causou maior impacto. Trago, nitída e forte, a reação do homem. Sua energia e suas emoções me golpearam e invadiram. Um misto de dor desesperada e silenciosa, para a qual era preciso recrutar força e superação diaria. Dor, indignação, raiva e a obrigatoriedade de calar para sobreviver não foram, de imediato, assimilados por mim. Mas o baque das emoções emanadas quebrou meus escudos e abriu uma fresta que alagarda constantemente, permitiu a empatia e o entendimento que sustentam a solidariedade
Depois da aprovação no vestibular não voltei a ver o homem, mas o lado obscuro da ditadura continuou a sujar minhas adoradas lentes coloridas. Já não era possível transitar incólume pelo mundo.
No ano seguinte Dom Evaristo Arns, Plinio Marcos e um jornalista de Brasília trouxeram retratos crús do país que eu acreditava ser uma pátria acolhedora e de infinitas oportunidades.
No inicio dos anos 80 nada restou de minhas lentes. A morte de uma pessoa querida, que após sair da prisão carregava consigo o pânico pelas torturas sofridas me obrigou, definitivamente, a conviver com o lado sombrio de meu país. Muitas vezes perdi a fé e a esperança. Tantas outras as reconstruí.
Quase quarenta anos depois de tropeçar pela primeira vez na realidade, vendo adolescentes pedindo intervenção militar, não os julguei. Lembrando de meu próprio universo de adolescente, de minha antiga necessidade de afirrmação, defendo que exercem seu inalienável direito de cometer ações equivocadas e aprender com elas. Mas não posso deixar de me indignar com aqueles que, com conhecimento de causa e excesso de recursos, abusam inescrupulosamente dessas necessidades, as usando para causar danos a todos nós. Muitos são mais que coniventes com a tortura e a morte de pessoas que lutavam movidos pelo sonho de um país mais justo Digo que são mais que coniventes, porque entendo que são cumplices. Sabem o que fazem, conhecem as consequencias, mas não reconhecem o outro como pessoa de igual direito. Por um lado manipulam, levando milhares a participação inconsequente de atos que beiram shows de estrelas ou carnaval fora de época enquanto articulam e apoiam o envio dos mesmos adolescentes a presidios de intolerável violência, provavelmente visando futura privatização dos mesmos.

Depois de ver os inúmeros videos de depoimenos colhidos nas manifestações induzidas desejei rever o homem que não me poupou da verdade. Gostaria de conhecer sua história e agradecer.

ler mais

Posts Relacionados

Compartilhar

TEM SOL LÁ FORA

jun. 5, 2015 por

 

 

ilustração: Erly Ricci

“Tem sol lá fora. É preciso limpar o jardim e voltar a escrever!” Erly Ricci

Ainda atordoada com a partida do Erly, cumpro a primeira tarefa. Limpo e redefino as linhas do jardim enquanto tento ordenar sentimentos, emoções e pensamentos. Ao mesmo tempo um texto dá voltas sem ganhar formato definitivo. A brisa parece assoprar diferentes maneiras de abordar o mesmo tema e as variaveis não apontam para a coesão. Ainda não será escrito. Antes é preciso palavrear o que é dificil definir.

 A travessia de alguém muito próximo revolve consciente e inconsciente, desordena referencias e nos deixa sem rumo. As emoções oscilam, lembranças ganham novas formas, as relevancias sofrem alterações sem controle e tudo parece ficar à deriva.

Por um momento, que pode durar dias, semanas ou mais, é preciso cortar o contato com o mundo e cuidar da despedida. Dependendo do significado que a pessoa que partiu tem na nossa vida, a despedida não encerra o assunto. Abrem-se possibilidades e a medida que avançamos, novos entendimentos revestem as experiencias, principalmente quando enfrentamos situações similares àquelas que vivemos ao lado da pessoa, mas as experimentamos de outros angulos.

A partida de alguém tão próximo, quando ainda se tem planos em comum, primeiro desestrutura, para depois dar vasão ao alargamento da visão do outro e do mundo.

 Erly foi relatando seu processo de desligamento, mas eu, resistente, insisti em estender a mão. Ele aceitou a oferta apenas para se despedir. Buscou o resgate do que era essencial e declarou seus sentimentos, alguns em particular, outros em uma página de facebook. Consciente do próprio processo, fez recomendações, uma delas repetidas vezes.

 A travessia de cada pessoa é particular e a vivência de cada um que permanece por aqui também.

Tomo a frase sussurrada por ele para retratar sua partida:

 “A gente se faz refém, mas sempre dá para virar fotons.”

Erly se fez um aglomerado de fótons e partiu. Está livre. Eu busco o entendimento de sua presença em minha vida antes de seguir com a jornada.

     nosnos01IMG_20131019_173917       ErlyRicci

ler mais

Posts Relacionados

Tags

Compartilhar

PINTANDO PONTOS DE LUZ

maio 31, 2015 por

LUAA lua salta sobre nuvens como se fossem fundo. Auréolas, do branco ao ferrugem, a contornam.
Ela passeia entre nuvens ou as nuvens passam por ela?
Talvez lua e nuvens,  que de meu ponto de vista seguem em lenta leveza, movam-se com agilidade e destreza.
No trajeto, grumos escuros e pesados cerceiam o brilho. Mas grumos são passageiros, como passageiro é o momento de agora. Parecem sem movimento, mas o desarranjo das formas desconfirmam a impressão.
No chão úmido o zunzunar dos grilos oscila e persiste. Parecem alheios à lua, às nuvens e aos meus pensamentos.
Dos grumos salta a luz e a lua arredondada reaparece, fingindo sobrepor-se à camada branca. De novo, produz arcos do translúcido ao ferrugem e escorrega rumo à próxima barreira.
As barreiras é que se movem, diria um anjo torto, que um dia tropeçou e caiu. Sem preparo para o mundo dos expurgos andou atropelando e sendo atropelado, até que sumiu. Talvez esteja lá, entre tolhas brancas e felpudas, pintando pontos de luz.

ler mais

Posts Relacionados

Tags

Compartilhar

SOLIDARIEDADE E (IN)JUSTIÇA – de Betinho a Protógenes.

out. 24, 2014 por

Betinho

Betinho

Solidariedade é a palavra que define o grande Betinho, um dos irmãos do Henfil, ativista dos direitos humanos, que contraiu o virus HIV em transfusões de sangue necessárias ao controle da hemofilia e que doou os últimos anos de sua vida ao combate da miséria e da fome.

Betinho, um brasileiro que dá orgulho de ter a mesma nacionalidade que ele, desencadeou na década de 90, não uma campanha, mas um movimento nacional de respeito e compaixão. Mas Betinho era humano e frente as dificuldades enfrentadas pela organização que dirigia cometeu um deslize: aceitou doação do jogo do bicho. O mesmo jogo do bicho que antes era feito a mão, num pequeno papel, com uma esferográfica qualquer, nos botecos da maioria das cidades brasileiras e que acompanhando a evolução tecnológica passou a ser registrado em maquinas similares as dos cartões de crédito, que emitem um recibo, também similar as últimas.

Para o Betinho a doação foi fatal. A grande mídia que antes tinha inflado o balão do movimento, não deu trégua. O sociólogo admitiu o que seria um erro, não fosse o jogo do bicho a ilegalidade mais legal do Brasil. Assumir a culpa não foi suficiente e a mídia continuou a crucifica-lo. Especulo que com uma eleição presidencial à frente, o possível apoio de Betinho ao PT significava um risco para o setor.

Não foi a primeira nem a última vez que o jogo do bicho ganhou destaque na mídia. Em outras ocasiões ocupou espaço no chamado “jornalismo”. Na minha opinião, o tema voltada às manchetes sempre que era de interesse dos senhores da imprensa.

Mudando de vida real para a ficção, encontramos o mesmo tema em duas novelas: Mandala e Senhora do Destino.

O herói da novela Mandala foi o bom bicheiro cheio de cacoetes Tony Carraro, interpretado por Nuno Leal Maia. Apaixonado pela bela Jocasta, interpretada por Vera Fischer, teve suas boa conduta premiada com o amor de sua deusa.

Dezessete anos depois,  quando  o jogo do bicho tinha sumido dos noticiários, a novela Senhora do Destino trouxe o bicheiro aposentado Giovanni Improta. Repetindo o perfil do rico sem bom gosto e fala cheia de maneirismos, o personagem era, além de mantenedor de uma escola de samba, o benfeitor a quem todos da comunidade podiam recorrer, especialmente sua amada, Maria do Carmo. Nem é preciso lembrar que numa reviravolta inverossímil, Giovanni também foi premiado com o amor da musa inspiradora do samba-enredo da escola.

Giovanni era ex bicheiro, mas mantinha o pé na contravenção e para situações de emergência recorria ao parceiro de outros tempos. Essas relações renderam cenas de intrepidez e coragem quando a personagem Duda, interpretada por Débora Falabella, foi raptada. Com aparato e habilidades de dar inveja a SWAT, os amigos do ex bicheiro não só resgataram a mocinha desamparada como desqualificaram, em rede nacional, a policia do Rio de Janeiro.

A partir dos fatos ficam uma série de considerações. Receber doações de bicheiros para um movimento de combate a fome significa receber ajuda de contraventores. Fato largamente usado para penalizar e desmoralizar um admirável brasileiro. Mas nas novelas formadoras de padrões relacionais e de valores, que atingem todo país, sem restrição de faixa etária, o bicheiro pode ser herói, merecedor de destaque, apreço e amor. Isto não só é permitido como propagandeado e aplaudido. Conotar como heróico um grupo contraventor, com  armas e treinamento melhores que da polícia não é enquadrado como ilícito. Dizer ao país que para estar protegido é melhor ter amigos na contravenção que recorrer as instituições legais, é aceito sem protesto.

Durante algum tempo teci considerações a respeito dos dois personagens. Cogitei a hipótese de uma construção com finalidade de propaganda paga, similar àquelas de produtos de beleza ou de uso doméstico, que são inseridas em determinados capítulos, geralmente associados aos personagens bem amados. Sem dados que favorecessem uma conclusão, desisti de pensar a respeito.

Betinho não foi a primeira vitima da mídia. Nem a última. A destruição moral de cidadãos públicos em beneficio da grande mídia ou de segmentos aliados tornou-se prática recorrente, Vimos esse tipo de ação repetidas vezes e suas consequências ganham maior gravidade com a isenção ou conivência da justiça. As vezes, além de não coibir a destruição moral, a justiça também a fortalece, inviabilizando retratações, como ocorreu com o direito do PT em relação a revista Veja                                                                                                                                                                                                                                           ProtógenesLembrando que o caso de Protógenes começou com reportagens e terminou com sua condenação por fornecer dados de investigação sigilosa, no caso do banqueiro Daniel Dantas. Condenação que ocorreu no julgamento do recurso, dias após o delegado licenciado denunciar possível fraude nas eleições e em período aos inúmeros vazamentos seletivos de uma delação premiada que deveria correr em segredo. Vazamentos seletivos cuidadosamente articulados para acontecer no período eleitoral, enfatizado no inicio do segundo turno e que comprometia uma das candidaturas. Vazamentos seletivos que até o momento não resultaram em nenhum indiciamento, seja do agente dos vazamentos ou dos veículos que abusaram das informações.

A ação da revista Veja no final do segundo turno demonstra a certeza na impunidade.

A imprensa instalada no país se coloca acima da lei, acima da nação, acima do estado de direito.

 

 

 

 

ler mais

Posts Relacionados

Compartilhar