Lá vem Maria

APARTHEID

jan 27, 2012 por

Entre brancos e azuis ele compunha lagos e montanhas. Paisagens do continente dos flocos com suas infinitas ondulações de variados tamanhos. Pareceu-lhe possível mergulhar no denso tapete de nuvens e ser envolvido e sustentado por ele. Denso, macio, reconfortante, como deveria ser a cama dos anjos.
O serviço de bordo pontuou a inconsistência da sensação: senhores passageiros atravessamos uma zona de turbulência e os cintos devem ser mantidos afivelados.
Acima, o sol em céu azul brilhante. Azul celeste que em nada lembrava o anil vislumbrado desde o solo em dias de poucas nuvens. Àquela hora a cidade que havia deixado certamente não era tocada pelo sol. Ao partir aquele pedaço de mundo cinzento havia ficado sob chuva ininterrupta. Mas, fraca ou forte, densa ou mansa, longa ou curta, a chuva nada podia contra a cisão forjada nos séculos de enfrentamento. Bastou colocar os pés naquele chão para que a opressão o impregnasse. Às vezes experimentava sensações de risco a percorrer-lhe o corpo. Outras, de degradação a rondar a vida. E enquanto lá estava, para superar a invasão e manter-se integro, recorreu às racionalizações.
Por força da tarefa a ser cumprida andou pelo bairro que designou senzala recém alforriada. Viveu a indignação que contaminava o ar circundante, a submissão raivosa, o enfrentamento medroso tomando poros e vísceras. Eram os anos de escravatura extrapolando o tempo, a imiscuir-se na opressão vigente e ambos coibindo risos, esperança, fé e afetos.
Fincou pé na resolução da incumbência e atravessou ruelas de vidas ofegantes, as venceu e se infiltrou nas avenidas de hotéis estrelados, prédios bem aparelhados, vitrines seguramente equipadas. Respirou o excessivo cuidado, a distanciamento comedido, a reserva de cada olhar. Traçou linhas que delineavam um e outro bairro. Ao último denominou casa grande.
Na primeira página de apontamentos improvisados, deixou  a inscrição: primeiros dias após a abolição. Seguiu descrevendo as impressões do corpo, que o intelecto transpunha para o verbo: senhores escravocratas e seus descendentes continuaram em seus bons lugares. Todos os outros foram forçados a permanecer na senzala, inclusive feitores e auxiliares. Aos alforriados nada foi oferecido, exceto a retirada do chicote e do pelourinho. Aos demais, os instrumentos de sempre, que os capacita ao domínio de uma nova ordem com mesmo o mesmo principio do “a ferro e a fogo”. Em meio à guerra muda, há quem tente construir uma vida possível. No conforto da casa grande, todos desconfiam de todos. Mais desconfiam dos diferentes que dos iguais. E de um ou outro lado, a vida segue estancada.
A zona de turbulência foi vencida, bebidas circularam pelo corredor da nave e ele continuou a compor lagos e montanhas no crespo das nuvens. Talvez, se guardasse na memória a beleza daquele imenso tapete de algodão doce, esquecesse os rostos da desesperança e lembrasse apenas do velho taxista que o ajudou no trânsito entre senzala e casa grande, disparando sorrisos gentis e conversas amigáveis .
O rapaz de tez morena, sobrancelhas e olhos escuros e fortes percorreu o corredor do avião recolhendo latinhas, enquanto a mulher quase loira retirava copos e pacotes plásticos. Ao redor da casa grande e senzala a vida seguia,  misturando o que as pessoas separam. E para não esquecer, tomou os apontamentos amassados e rabiscou:  flores nascem em antigas usinas nucleares e se alimentam de seus resíduos.

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TRAVESSIA

jan 19, 2012 por

Hoje não escrevo ficção.
Hoje compartilho a serenidade do ato de caminhar sobre a ponte de boa estrutura. Descubro aos quase cinqüenta e cinco anos o prazer da travessia sem solavancos, antevendo com segurança o lugar de chegada.
Vivi no sul, no nordeste e no centro oeste. Repeti cidades sem cimentar alicerces, convivi com pessoas de diferentes convicções e índoles, experimentei a vida sem a comodidade do pertencimento.
Poderia dizer que andei por aí, sem rumo, mudando de atividade, desperdiçando talentos. Mas escolho afirmar que transitei por espaços, acumulando vivências enquanto buscava meu lugar e minha tarefa no mundo.
Na última semana, durante uma curta viagem fui contaminada pela opressão da vida de outros, ao transitar ente eles e vivi na pele e nas entranhas a sensação de estar em risco. Ao reencontrar os filhos, o companheiro de jornada e pessoas queridas que marcam meu caminho, entendi que conquistei o que há de melhor na vida. Posso viver a alegria de fazer parte, de ter uma família que me acolhe, de saber e de estar bem com caminho a ser trilhado. Marco a descoberta com um pensamento de Marie Fontaine:
“A vida é um presente maravilhoso. Para apreciá-la, desfrutá-la e aproveitá-la ao máximo é preciso dedicar tempo às coisas que realmente têm valor”

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