Lá vem Maria

ALÉM DA ALFORRIA

jan. 20, 2016 por

liberdade

liberdade

 

A liberdade ultrapassa a alforria e creio, dela prescinde.
Não é na alforria que a libertação se faz, mas ao contrário. De posse da última pode-se cavar a primeira com os recursos que o caminho dispõe.
Liberdade é um estado que explode na alma e invade o corpo na forma de alguma coisa que palavra não define. Pode surgir num repente, junto com a decisão que revoga a emoção ou que retira o impedimento do mergulho. Pode eclodir na madrugada em que se alinham cinco planetas, ou numa manhã de sol exuberante do verão.
Liberdade independe das estações. Pode não vir com a primavera, quando as flores ganham força e se mostram ao mundo e, sem explicação, impor-se no dia de chuva, em meio a neblina fria do outono ou inverno.liberdade.
Não há muito sobre o que devanear. Abre-se os olhos, aspira-se um ar que parece mais fluído que o ar de antes, percebe-se que da pele às entranhas, tudo flui. Sabe-se, sem titubear, que as amarras foram desatadas, que já não será necessário nadar com pedras presas aos pés e que é possivel amar sem pudor.

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APARTHEID

jan. 27, 2012 por

Entre brancos e azuis ele compunha lagos e montanhas. Paisagens do continente dos flocos com suas infinitas ondulações de variados tamanhos. Pareceu-lhe possível mergulhar no denso tapete de nuvens e ser envolvido e sustentado por ele. Denso, macio, reconfortante, como deveria ser a cama dos anjos.
O serviço de bordo pontuou a inconsistência da sensação: senhores passageiros atravessamos uma zona de turbulência e os cintos devem ser mantidos afivelados.
Acima, o sol em céu azul brilhante. Azul celeste que em nada lembrava o anil vislumbrado desde o solo em dias de poucas nuvens. Àquela hora a cidade que havia deixado certamente não era tocada pelo sol. Ao partir aquele pedaço de mundo cinzento havia ficado sob chuva ininterrupta. Mas, fraca ou forte, densa ou mansa, longa ou curta, a chuva nada podia contra a cisão forjada nos séculos de enfrentamento. Bastou colocar os pés naquele chão para que a opressão o impregnasse. Às vezes experimentava sensações de risco a percorrer-lhe o corpo. Outras, de degradação a rondar a vida. E enquanto lá estava, para superar a invasão e manter-se integro, recorreu às racionalizações.
Por força da tarefa a ser cumprida andou pelo bairro que designou senzala recém alforriada. Viveu a indignação que contaminava o ar circundante, a submissão raivosa, o enfrentamento medroso tomando poros e vísceras. Eram os anos de escravatura extrapolando o tempo, a imiscuir-se na opressão vigente e ambos coibindo risos, esperança, fé e afetos.
Fincou pé na resolução da incumbência e atravessou ruelas de vidas ofegantes, as venceu e se infiltrou nas avenidas de hotéis estrelados, prédios bem aparelhados, vitrines seguramente equipadas. Respirou o excessivo cuidado, a distanciamento comedido, a reserva de cada olhar. Traçou linhas que delineavam um e outro bairro. Ao último denominou casa grande.
Na primeira página de apontamentos improvisados, deixou  a inscrição: primeiros dias após a abolição. Seguiu descrevendo as impressões do corpo, que o intelecto transpunha para o verbo: senhores escravocratas e seus descendentes continuaram em seus bons lugares. Todos os outros foram forçados a permanecer na senzala, inclusive feitores e auxiliares. Aos alforriados nada foi oferecido, exceto a retirada do chicote e do pelourinho. Aos demais, os instrumentos de sempre, que os capacita ao domínio de uma nova ordem com mesmo o mesmo principio do “a ferro e a fogo”. Em meio à guerra muda, há quem tente construir uma vida possível. No conforto da casa grande, todos desconfiam de todos. Mais desconfiam dos diferentes que dos iguais. E de um ou outro lado, a vida segue estancada.
A zona de turbulência foi vencida, bebidas circularam pelo corredor da nave e ele continuou a compor lagos e montanhas no crespo das nuvens. Talvez, se guardasse na memória a beleza daquele imenso tapete de algodão doce, esquecesse os rostos da desesperança e lembrasse apenas do velho taxista que o ajudou no trânsito entre senzala e casa grande, disparando sorrisos gentis e conversas amigáveis .
O rapaz de tez morena, sobrancelhas e olhos escuros e fortes percorreu o corredor do avião recolhendo latinhas, enquanto a mulher quase loira retirava copos e pacotes plásticos. Ao redor da casa grande e senzala a vida seguia,  misturando o que as pessoas separam. E para não esquecer, tomou os apontamentos amassados e rabiscou:  flores nascem em antigas usinas nucleares e se alimentam de seus resíduos.

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