Lá vem Maria

OS ÓCULOS ESPELHADOS

out 6, 2011 por

 

No dia em que completou vinte e cinco anos comprou para si um par de óculos escuros e espelhados. Saiu da ótica satisfeita com o presente perfeito para seu rosto miúdo. Mas, escondido dos próprios pensamentos estava o desejo de que as lentes servissem de anteparo, que filtrassem o mundo, deixando passar apenas aquilo de pudesse dar conta. Não queria ser vidente, nem médium, nem adivinha ou ter poder sobre as pessoas. Bastava ter tranqüilidade para seguir adiante e organizar a vida.
Para que ver em demasia se não podia intervir? Para que ser invadida por pensamentos, dores, escuridões alheias se não tinha nas mãos o poder de resolução?

Creio que os óculos não foram suficientes para solucionar a questão e aos trinta e cinco anos estava à frente de uma médica, em busca de auxílio. Escolheu uma homeopata. Sabia que profissionais de outras especialidades não entenderiam sua queixa e alguns, inadvertidamente, a dopariam com seus mirabolantes comprimidos de tarja preta.
Perceptiva, não deixou escapar o riso enigmático que a médica escondeu ao ouvi-la dizer que precisava limitar a invasão dos sentimentos alheios. Mas frente à cumplicidade da mulher, escolheu seguir a risca o tratamento.

Não foram mais que uns dias até que descobrisse a causa do riso abortado: os próprios sentimentos, aqueles arremessados para o inconsciente, tomavam a superfície. O choro engolido e atravessado na garganta, o desamparo, a falta de ar provocada pelo soluço incontido, o medo, a insegurança, o desconsolo e o pânico. Momento a momento, sentimento a sentimento, passava ao longo do corpo, rumo à condição de simples memória.

Talvez os resultados fossem promissores. Já não precisava aprisionar seus monstros e podia, enfim, seguir sua trilha. Mas num dia de sol, quando descansava no banco de um parque, vendo ao lado uma menina franzina e calada tomou-lhe a mão. O gesto leve e simples deu-lhe acesso ao silencio quase absoluto daquele pequeno e escuro mundo. Não soube o que fazer.

Seguiu brigando com sua falta de anteparo. Marcou data para parar de sentir, ver e ouvir em excesso. E tanto tentou que um dia pareceu ter conseguido. E de tanto crer, esqueceu a própria sensibilidade.

Vivia uma vida igual a tantos quando começou a adoecer. Sentia verdadeiras descargas elétricas na cabeça; tinha espasmos de causa não identificada, insônia e irritabilidade incontroláveis.

Noutro aniversário, quando já marcava meio século de transito terrestre, recebeu de presente, um livro. E lá no meio, num parágrafo qualquer, estava assinalada a relação entre aqueles seus tantos sintomas e o bloqueio da intuição. E a intuição, às vezes louvada, às vezes desqualificada, era tratada naquele parágrafo sem grifo, como a capacidade superior, que um curador deve cultivar e aprimorar.

Rememorou os vinte e cinco anos de conflitos, lembrou as pessoas que, sem pestanejar, ajudou e outras, talvez em maior número, que hesitou, mas não prestou auxílio.

Enfim, retomou o que havia bloqueado, escolheu alongar a vida e dispor aos outros o presente que trazia em si.

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AMORES DE BRANCONA

out 1, 2011 por

Todos se referiam a ela como “a brancona”. Poderiam chamá-la de “a estranha”, “a esquisita”, “a reclusa” e qualquer dos apelidos refletiriam, com honestidade, sua condição. Mas na vila de pescadores todos eram morenos jambo ou negros, viviam expostos ao sol escaldante e à água salgada do imenso mar. Ela, ao contrário, dona de pele branca que rejeitava os intensos raios da linha do Equador, não se expunha.
Ganhou o apelido, riu quando a avisaram do adereço e continuou a cuidar do que deveria ser cuidado.

A brancona tinha sonhos que não compartilhava. Tinha projetos  a espera do tempo certo para germinar. Tinha, principalmente, dois imensos afetos, que apesar dos destemperos, cultivava no cotidiano.

O dia de afazeres começava antes das sete da manhã e seguia sem pausa até as sete da noite. E então, seus amores, que durante o dia, alimentava e vigiava nas brechas da labuta, ganhavam o primeiro plano.
Quando o mais novo dos meninos completou seis meses, decidiu que estava na hora de incluir pequenos passeios à vida de quase clausura. E sob a lua, saía pelo vilarejo, carregando o mais novo grudado ao peito, apoiado pelo apetrecho de pano e o mais velho atracado a uma das mãos.

No primeiro passeio a brancona ganhou nova designação. Passou a ser a “mãe do galeguinho”. E galeguinho era celebridade. O primogênito, tendo herdado a boa pele do pai, rodava a vila com ele, expondo os cabelos loiros que o sol havia prateado e fazendo admiradores por sua eloquência.
A princípio a brancona riu do novo título, mas não deixou de sentir incomodo pelo assédio ao filho, que achou excessivo. Temeu que a diferença de cabelo e pele desencadeasse presunção, mas não desistiu dos passeios noturnos. Todavia  impôs distância aos fãs do menino. Enquanto vencia as ruas, cumprimentava a todos com simpatia, mas nunca parava nas rodas de prosa, nem dava trela aos confetes de alguns insistentes.
Tomou como regra, seguir no embalo da brisa, até a sorveteria. Lá, continha o riso, vendo o menino de colo, avançar sobre o sorvete do irmão logo que o seu acabava. Achava exagero dar-lhe um sorvete inteiro, mas cedeu à gula do pequeno às reclamações do galeguinho.
No percurso de volta para casa, a parada no forró era obrigatória. Ficava à porta com o menor, enquanto dava ao outro, a chance de rodopiar na pista, até cansar.

Os filhos encerravam a noite na rede. Cada qual de um lado da mulher, que ao meio, cantarolava misturas de folclores e coisas inventadas, até que adormecessem.  Depois de colocar cada qual em sua cama, brancona gastava bom tempo cultivando a ternura desabrochada daqueles rostos doces. Só então, com a alma apaziguada ia alimentar os outros sonhos, para que ganhassem corpo na mesma medida que haveriam de crescer os seus meninos.

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