Lá vem Maria

PARA SEGUIR ACREDITANDO NA VIDA

out. 15, 2014 por

 

Apresentação de trabalho na 1ª mostra Nacional de Praticas em Psicologia Social - em 2000- trabalho incluía os padrões de comunicação da TV.

Apresentação de trabalho na 1ª mostra Nacional de Praticas em Psicologia Social – em 2000- trabalho incluía os padrões de comunicação da TV.

Destrinchar os padrões de comunição da midia, em particular da televisão já fez parte do meu trabalho junto a educadores. Confesso arrependimento pelo abandono.

Era um trabalho pequeno e solitário. Mas hoje é exatamente o conhecimento que falta ao país.

Alguns anos atrás desliguei a TV.

Não tenho boas defesas para algumas coisas e a medida que a idade avança, a falta de defesa aumenta. Sou invadida pelas dores dos outros, energias dos outros e violência me indigna.

 A televisão é particularmente torturante, seja porque nos denigre como pessoas, em particular à mulher, especialmente nas novelas da Globo, ou porque nos impõe padrões de conduta e crenças pela repetição incessante. Os personagens malévolos que não descansam senão com a morte começam a ser mostrados a tarde e continuam noite a dentro. A ideologia dos programas pode ser resumido ao seguinte: desista, nada pode ser mudado, exceto se você cair nas graças do(a) herdeiro(a) de milionários ou do próprio milionário, ou milionária. Ninguém cresce, muda, constrói a própria ascensão social e isto, para o expectador que só quer relaxar depois de um dia pesado, é destrutivo.

 O mesmo principio provoca a entrada de muito dinheiro, pois os anunciantes pagam para que expectadoreu vejam seus produtos, muitas vezes  usados pelo(a) personagem bem amado(a) ou desejado(a).

 Mas a pior parte é que a própria instituição “televisão” age de maneira tão manipulativa quanto seus perversos personagens. Faz isso de diversas formas: misturando níveis de conteúdos – ficcional e real, por exemplo – o que já é, em si, esquizofrenizante; retirando elementos de um contexto e o apresentando como uma totalidade ou reconotando e revalorizando certos elementos. Tudo isso perversamente mostrado sob a tarja de “veículo de informação” dotado de neutralidade.

 Parece um quadro negro. Mas é pior que isso. Esses veículos formam uma rede de retroalimentação com revistas e jornais. Na maior rede, na mais visível, identificamos claramente a revista Veja, o jornal Folha, o Globo, revista Época e a rede Globo, incluindo canais pagos.

A repetição incessante deixam as lentes com que olhamos o mundo viciadas. Assim esse grupo que está infiltrado em todos os cantos do país tem um poder avassalador. Nem os monarcas do absolutismo tinham poder igual.

Com a televisão desconectada não acompanhei a chuva de denúncias cuidadosamente articulada para atingir o país no segundo turno. Mas fiquei chocada com a reação de pessoas com quem convivo e decidi ver todos os vídeos dispostos na internet a respeito da tal delação premiada. Queria saber se havia nela algo que desabonasse meu voto. Fiquei ainda mais chocada ao ver que o depoimento mostra nada a mais que velha corrupção infiltrada nos diferentes setores da sociedade e da economia do Brasil.

O delator, também réu confesso, retrata o Cartel da Empreiteiras e o recebimento de vantagens financeiras por ele e por políticos de diversos partidos. São crimes financeiros. Devem ser investigados e os culpados devem ser punidos. Mas o politico citado frequentemente, a quem o réu atribui a articulação do esquema de recebimento de propina, morreu em 2012 e sequer pode se pronunciar. Trata-se de José Janene, ruralista, do PP daqui do Paraná, No meio do depoimento, em algumas falas o réu diz que uma parte dos recebimentos iam para o Partido dos Trabalhadores e sugere nomes, com os quais ele próprio deixa claro, não teve nenhuma conversa a respeito. Reafirmo, é crime, deve ser investigado e se comprovado, punido. Mas a mídia pune por antecipação e isso tem sido regra e isto não é justiça. É linchamento.

Ao mesmo tempo o delator afirma com segurança que o setor que faz os orçamentos iniciais, antes que ocorram as licitações, não deixa que ocorram vazamentos. Quando a vencedora da licitação apresenta valores que ultrapassarem em mais de 20% dos orçados e não há negocia para adequar, a licitação é anulada e reiniciada. Quem faz os orçamentos não faz parte da corrupção, o que leva a conclusão que não há super faturamento de obras. A propina é adicional dado pelas empresas do cartel.

Dito isso resta questionar: por que os telespectadores não estão indignados com o monstruoso desvio de dinheiro do metro de São Paulo, gerido pelo PSDB? Será que ele não existe de fato ou denuncia-lo não é de interesse do conglomerado da grande mídia?

 Por que não ficam indignados com o montante roubado na venda do Banestado? Por que a venda, a preço ínfimo, da Vale do Rio Doce, que geraria imensos recursos ao país, não provocou indignação semelhante? Afinal nós pagamos a construção da Vale, assim como pagamos a construção de nossas antigas companhias telefônicas.

 Depois de ver os vídeos do depoimento vi outro: https://www.youtube.com/watch?v=wwZ0Lvtt8A4

 A apreensão de pasta de cocaína completamente documentada, com imagens do flagrante, entrevista de um dos envolvidos reafirmando a veracidade do fato, entre outras coisas. Soma-se ao fato mais que comprovado, outro, incontestável: a construção de aeroporto em terras do tio do então governador de Minas Gerais.

 Chegamos ao ponto mais grave. Com tantas provas incontestáveis a justiça nega-se a investigar e tudo é devolvido àqueles que deveriam estar encarcerados. Enquanto isso o amigo do dono do helicóptero concorre a presidência do pais.

 O que, afinal, acontece com o judiciário brasileiro? A que podemos recorrer?

 Enquanto isso discute-se a redução da idade penal. Para que? Para que crianças cada vez mais novas sejam aliciadas? É este o país que queremos?

 Mas a Globo não noticiou, a Veja não encheu suas páginas com as fotos dos flagrantes, a Folha não publicou um editoral a respeito, então podemos seguir indignados com vendas nos olhos até que um dos nossos caiam na rede.

Prefiro continuar falando o que vejo. Prefiro crer que é possível  sair deste cerco. Prefiro crer que é possível viver no Brasil!

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