Lá vem Maria

Marlene de Oliveira: a arte resgatando a vida

mar. 1, 2016 por

marlened“ Ainda não fiz meu autorretrato, mas já estou me vendo por dentro. Como isso é magnífico, lindo demais
Foi simples para me descobrir: através da dança. Uma coreografia que quase não é conhecida no meio artístico, por preconceito da sociedade. Dança que exige toda sensualidade do corpo em movimentos encantados, expressão leve. É a única dança que não pode ter o toque dos pares. Eu me vejo livre como uma ave pairando entre montanhas: a dança cigana…”
Valle dos Sonhos – um passado real
Marlene de Oliveira

Afirmo, sem ter dúvidas, que a falta de vínculos ou a ausência total de afeto promove a morte tanto quando a desnutrição.

Quando olhos cuidadosos não acariciam a criança, quando mãos seguras não são estendidas, quando não há cuidados disponíveis, o universo vira escuridão e o fio da vida pode ser cortado. Mas há quem sobreviva em famílias que não acolhem. Nestes casos pode-se verificar que algum amparo veio de fora, de outros olhos, de pessoas que não pertencem ao núcleo familiar. As vezes são fios intermitentes de luz, capazes que alimentar a força. Quando esses fios deixam de existir, a escuridão triunfa. marlene

Este poderia ser o resumo da vida de Marlene de Oliveira, mas ela mereceu um feixe adicional de luz, decidiu continuar, superar, contar e pintar sua história e renascer na dança.

Neste texto não repetiremos todo relato da trajetória de Marlene, que pode ser conhecido com as palavras da protagonista, no livro Valle dos Sonhos – Um passado real, editado pela J. M.Editora. Também pode ser vivenciado numa incrível sequencia de telas pintadas a óleo, que ocupam cinco paredes da casa que ela construiu com suas mãos. Na galeria abaixo, mostramos algumas.

Vamos partir do ponto em que, depois de arrastar um carrinho pelas ruas catando o sustento seu e das filhas, de trabalhar na faxina de hospitais, doente, sem trabalho e com rejeição da família, Marlene sucumbiu. E este foi ponto de seu renascimento. Ela recebeu e aceitou o olhar cuidadoso de um médico, acatou o apoio e tornou-se seu próprio amparo.

Foi preciso que um olhar amoroso, aqui entendido como de amor universal, a impulsionasse. Foi preciso que usasse a palavra – verbal e escrita – para expurgar a dor. Foi preciso pintar em fundo branco para expelir a escuridão que carregava consigo e só então pode ser a dona de si mesma.

A ruptura foi marcada pela quebra da lei do silêncio, imposto pela família, ao qual ela se submeteu. Falou, escreveu e pintou sua trajetória, até que pudesse deixá-la no passado.

É neste ponto que nasce a bailarina de dança cigana.

Depois de aprender a dançar e de sua história ser conhecida, ela passou a fazer apresentações e a participar de eventos como reuniões, conferencias e encontros, com o propósito de impulsionar o resgate de outras mulheres vitimas de violência. Participa com sua dança, relatando sua experiência de vida, apresentando seu livro ou expondo suas pinturas. Trabalho voluntário que pode sr constatado nos inúmeros álbuns postados na sua página no Facebook e da qual nos autorizou a reprodução de algumas.

Marlene participa para dizer a outras mulheres que é possível assumir as rédeas, quebrar o circuito de violência a que estão submetidas e ter uma vida digna. Ela parece repetir: eu consegui, você também pode.

Marlene é exemplo. É modelo a espelhar e, exatamente por isso faz-se necessário considerar um aspecto relevante na sua história. A primeira opressão relatada tem origem na própria mãe. O primeiro modelo desse padrão ambíguo, que mescla sentimentos de proteção e desamparo com violência, foi daquela que se deixava sugar pelos homens da família, tratava com violência física e emocional, a filha de mesmo sexo e permitia que recebesse maus tratos dos irmão. Este padrão de relação repete-se ao longo da vida, até que viver deixasse de ter sentido. Este foi o tipo de vínculo com o qual ela precisou romper para ir em frente.

A constatação não é uma acusação e não exime qualquer outro membro. Antes, aponta para necessidade nos pensarmos como mães e mulheres. É também um sinal de que é necessário nos colocarmos atuantes na reconstrução dos valores vigentes, na formação dos padrões de relacionamento de nossos filhos e filhas, na valorização, sem mitificação, de nossa função na família e na sociedade. É preciso educar sem deixar que esqueçam que uma mãe é uma pessoa, não uma heroína de poderes ilimitados. É uma mulher a ser respeitada e não o sexo fraco a ser desconsiderado. Assim ensinamos nossos filhos a respeitar outras mulheres e nossas filhas a não se deixar agredir.

marlene*

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Para quem quer saber mais sobre a guerreira Marlene de Oliveira, disponibilizamos os links:

http://www.bonde.com.br/?id_bonde=1-31–56-20140809

http://andes-ufsc.org.br/vidas-ameacadas-machismo-que-fere-e-mata/

http://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/colunistas/jose-carlos-fernandes/a-paixao-de-marlene-de-oliveira-e0hl1lgdqosm273llp2k40716

ler mais