Lá vem Maria

O VALE DAS OLIVEIRAS

set. 26, 2011 por

Eram muitos, mas não tantos que caracterizassem uma multidão.
Avançavam em fuga sem olhar para trás. Nenhum deles desejava reter na alma as desventuras sofridas.
Para onde seguiriam?
Nenhum deles sabia. O caminho, tomado ao acaso, cortava terra árida e tórrida. Mas marchavam, esperando dar com a brisa a balançar o verde brotado da terra. E junto ao verde, entre pedras, certamente haveria de escorrer água fresca e cristalina.
Maria seguia resoluta ao ritmo do menino que lhe agarrava o vestido roto. Num dos braços, a menina enrolada em panos leves. Noutro, a trouxa com parcas vestes recolhidas ao acaso.
Maria não era invencível. O longo percurso sob o sol impiedoso a exauriam. Ela fraquejava e à frente nada via senão terra morta. Desistiria, não fossem os olhos implorativos dos filhos e por eles, voltava à marcha.
João, que não tinha filhos nem roupas tomou a menina. Bem podia carregar a pequena e dar a mulher um pouco de ânimo. José, também solitário e sem posses seguiu o exemplo e cuidou da trouxa. Maria, agradecendo sem sorrir, tomou a mão do menino, oferecendo o conforto que a própria alma não dispunha.

Em terra estéril o sol se põe como em qualquer terra. A princípio a noite trouxe alento. Depois, o desconforto do frio incomum. E antes que tomasse para si as vestes, Maria falou a José, que desatou a trouxa e distribuiu o que ali havia. Noutros pontos, outras trouxas eram desatadas quando Pedro começou a partilhar o pão e Paulo a distribuir água, dosando para que todos pudessem amenizar a sede. Magdala seguiu Pedro, depositando em cada naco de pão, uma colher de mel. Outros e outros os imitaram.

O sol apontava vermelho e poderoso, quando o vento os tocou. Primeiro a pele, depois os ouvidos, com o zunzunar de folhas e galhos. Logo o mais alto deles pode ver o balanceio das copas. Ainda percorreram longa distância em caminho ressequido, mas à sombra das oliveiras cultivaram a vitalidade que a cortesia havia preservado.

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