Lá vem Maria

O PECADO DA SUBMISSÃO

mar. 9, 2014 por

IMG_20131202_195146“Durante muito tempo sintonizei contigo porque conhecia a tua vida através da minha própria existência e porque queria ajudar-te.
Mantive-me perto de ti porque vi a que te era útil e que aceitavas o meu auxilio com prazer e, não raro, com lágrimas nos olhos. Só aos poucos percebi que o aceitavas,mas que não eras capaz de defendê-lo. Defendi-o e lutei para ti, por ti. Foi então que os teus chefes destruíram o meu trabalho e que tu os seguiste em silêncio.
Continuei então em comunhão contigo, tentando achar maneira de ajudar-te sem soçobrar quer como teu dirigente quer como tua vítima. E o Zé Ninguém que reside em mim tentava convencer-te, “salvar-te”, merecer-te o respeito que consagras às “altas matemáticas” por não fazeres a mínima idéia do que sejam. Quanto
menos entendes, mais prezas.
Conheces Hitler melhor que a Nietzsche, Napoleão melhor que
a Peslalozzi. Qualquer monarca significa mais para ti do que Sigmund Freud. E o Zé Ninguém que vive em mim gostaria de ter-te nas mãos pelo processo costumeiro, recorrendo ao rataplã dos chefes. Eu temo-te, porém, quando o meu Zé Ninguém deseja “conduzir-te à liberdade”. É que poderias descobrir a mesma identidade medíocre em ti e em mim, e, assustado, matares-te na minha pessoa. Foi por isso que deixei de ser escravo da tua liberdade e desejar morrer por ela.” Wilhelm Reich – do livro Escuta, Zé Ninguém!

Escuta, Zé Ninguém! de Wilhelm Reich é um livro difícil de ler. Difícil porque Reich ao expor o Zé Ninguém que traz em si, desvela o meu Zé Ninguém e provoca o confronto com suas amargas consequências. Um livro difícil que releio quando encaro os ônus da submissão e entendo que submeter o outro e submeter-se ao outro é um jogo intrincado, de mutua dependência e ônus para todos.
Um pecado?
Um pecado sim, porque submetidos e submetedores roubam-se mutuamente a liberdade de ser, de realizar a promessa que cada alma trás em si. Um pecado porque atenta contra a própria vida, o próprio crescimento e a própria realização. Um pecado porque a soma das submissões atenta contra o coletivo, contra a realização das potencialidades do todo.

Mas se o livro é difícil é também belíssimo e nas últimas páginas celebra a vida, incitando à grandeza. Nelas Reich escreve:

“És grande quando desempenhas com gosto a tua tarefa, quando trabalhas na alegria a madeira, quando constróis, quando pintas e embelezas os teus espaços, quando trabalhas a terra, quando contemplas o céu na quietude e te comprazes na existência dos animais simples, no orvalho, quando danças e cantas, quando amas a beleza dos teus filhos, o corpo do homem ou da mulher que escolheste; quando vais até um planetário tentar entender o espaço ou a uma biblioteca ler o que pensaram da vida outros homens e mulheres. És grande na tua velhice, com o teu neto no colo, dizendo-lhe de como foi outrora, respondendo à sua curiosidade confiante. És grande quando és mãe, embalando o teu filho nos braços, o coração cheio de esperança de que para ele venham melhores dias, a felicidade que, hora a hora, lhe vais construindo.
És grande, Zé Ninguém, quando cantas as antigas canções do teu povo ou danças ao som do acordeão, porque os cantos do povo são pacíficos, e são-no em todos os lugares do mundo”(W. Reich em Escuta, Zé Ninguém!)

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