Lá vem Maria

O BRASIL E EU EM TRÊS CENAS DE LEONOR

set 8, 2014 por

 

 

Leonor e eu

Leonor e eu

Primeira cena:

Do lado de dentro do balcão do comércio que ficava na rua principal da cidadezinha poeirenta do norte do Paraná, estava a respeitada Leonor, uma mulher de pouco mais de quarenta anos, um metro e cinquenta e três de altura e sessenta e cinco quilos de peso. A comerciante, empunhando um litro de alguma bebida, abria os braços enquanto gritava no mesmo tom e altura de seu interlocutor. O litro era a arma com a qual se defenderia, caso fosse necessário.
Do outro lado estava o respeitável fazendeiro que empunhava um revólver e esbravejava. Logo atrás dele, a multidão tomava as cinco portas do Bar, Padaria e Sorveteria Alvorada.
O enfrentamento era motivado pela quebra de um acordo de venda de porcos que Leonor criava em seu pequeno sitio e que o fazendeiro queria levar a baixo preço para repassar a um frigorífico.
Ninguém interferia. Não sei se naquele dia havia alguma autoridade na cidadela. A pequena delegacia vivia fechada e o delegado, se estivesse por lá, dificilmente ousaria enfrentar o fazendeiro ou contradizer Leonor. O prefeito, um homem culto, educado e amigo de muitos, havia fugido para não ser preso por ser comunista. Leonor e o fazendeiro estavam à mercê um do outro e sob os olhos da multidão.
E eu?
Eu, uma menina franzina e introspectiva assistia à cena, de pé na porta que ligava o comércio à nossa casa. Ao chegar da casa da colega de escola, a filha do prefeito foragido, fui tomada de surpresa e fiquei ali, na porta, com minha irmã menor no colo, olhando briga. Não lembro de sentir medo. Não lembro de ter considerado a possibilidade de que um tiro atingisse minha mãe. Lembro apenas de minha perplexidade, de minha falta de entendimento frente a cena estúpida.
Leonor não cedeu, o fazendeiro partiu sem puxar o gatilho e desde o ocorrido, tornaram-se inimigos.

Segunda Cena
Leonor costumeiramente passava em revista o local onde o pão era fabricado para depois, assim que as filhas mais velhas chegassem da escola, fechar as portas do comercio e, finalmente, descansar.
Numa noite quente, ainda antes da chegada do verão, ela concluía a ronda quando deparou com o tumulto que tomava a rua. Temendo que o filho estivesse envolvido em alguma briga foi em direção ao povo, mas não chegou à porta. Foi interpelada pelo fazendeiro inimigo, que abusando do respeito adquirido, retirava do meio da multidão um guarda municipal que estava sendo linchado.
O fazendeiro empurrou seu protegido ensanguentado para dentro do comércio enquanto gritava: dona Leonor, salve o guarda!
Leonor fez com que a vitima fosse para trás do balcão e abrindo os braços gritou para a multidão que avançava: ei gente, vão querer invadir minha casa agora?
A multidão parou. Inexplicavelmente nenhuma das cinco portas do comercio de Leonor foi ultrapassada.
E eu?
Eu assistia a cena, sentada junto ao caixa, onde ficava todas as noites enquanto minha mãe fazia a ronda. Não lembro de sentir medo. Não lembro de temer que minha mãe fosse atropelada pelas pessoas ou que nossa casa fosse invadida. Lembro apenas de minha perplexidade, de minha falta de entendimento frente a cena estúpida.
A multidão parou, minhas irmãs que chegavam da escola acudiram o homem ferido enquanto, arrancada da inercia pelos gritos de Leonor, corri para ajuda-la a fechar as portas.
Não vi para onde foi o fazendeiro e não sei se ele e Leonor continuaram inimigos ou não.

Terceira cena
Em 1989, ano da primeira eleição pós ditadura, Leonor já não tinha comércio. Vivia em seu pequeno sitio, numa outra cidadela poeirenta, no oeste do estado, desfrutando do respeito conquistado.
No dia da votação do primeiro turno Leonor levantou na hora de sempre e como sempre ordenhou as vacas e alimentou os animais, incluindo galinhas e cachorros. Só depois seguiu para a cidade, decidida a votar em Roberto Freire.
Chegou tarde e enfrentou uma fila imensa, mas não reclamou. Ficou por lá aproveitando a prosa com um e outro. Prosa que sempre levava a mesma questão: vai votar em quem dona Leonor? Ela respondia sem mesuras: no Roberto Freire.
A cada resposta seguiam os assombros, comentários e considerações. Leonor refutava todos os argumentos e seguia decidida a votar no candidato comunista.
À sua frente a fila diminuía. Atrás, a fila crescia e era tomada por pessoas, que depois de ouvir a declaração de voto da lavradora não cansava de expressar o choque.
Leonor estava quase frente a urna, quando uma recém-chegada gritou lá de trás: dona Leonor, a senhora vai mesmo votar num comunista?
Leonor virou, abriu os braços e respondeu um pouco mais alto que a inquisidora: ei gente, que atraso é esse? Vocês ainda estão no tempo em que se acreditava que comunista come criancinha? Ainda não viram que isso é só coisa dos poderosos pra colocar uns contra os outros?
No segundo turno das primeiras eleições diretas pós ditadura Leonor, que não acreditava em Caçadores de Marajás nem nas invenções da televisão, votou em Lula. Mas em 1989 fomos todos derrotados por uma ficção apoiada pela midia. No dia seguinte à derrota, Leonor levantou no horário de sempre, ordenhou as vacas e como sempre, alimentou os animais.
Leonor não teve poupança confiscada. Não confiava nos bancos e preferia aplicar na terra e na cooperativa. Mas sofria com as pessoas que viram o fruto de uma vida de trabalho sumir de um dia para outro. Sofria com as pessoas que enfartaram e morreram.
E eu?
Eu já era mãe e não podia mais me ausentar da realidade nem deixar que a perplexidade me paralisasse. Segui tentando achar um lugar no mundo e preparando meus filhos para que transite nele.
Hoje, atravessando novo momento em que mais uma ficção pode derrotar o país, penso que Leonor precisava de uma plateia com milhões de brasileiros.

1 comentário

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